Por Padre Antônio Vieira (1672)
Responde a razão facilmente. Chama Cristo pão à hóstia consagrada sem ser pão, porque ainda que não é pão, foi pão, ainda que não é pão, parece pão, e para ter o nome não é necessário ser, basta haver sido; não é necessário ser, basta parecer. Prova a razão com o mesmo Evangelho. Panis quem dabo, caro mea est (Jo. 6,52): O pão que eu vos hei de dar, diz Cristo, é meu corpo. – Pois; se é corpo, por que lhe chama pão? E se lhe chama pão, por que lhe chama corpo? Chama-lhe corpo pelo que é, e chama-lhe pão, pelo que foi? Chama-lhe corpo pelo que é, e chama-lhe pão pelo que parece. Aquela hóstia não é pão, mas foi pão e parece pão, e basta o parecer e o haver sido, para se chamar assim. E por que não possa dizer o herege que isto é explicação humana e nossa, veja ele, e vejam todos, como esta é a frase e o modo de falar de Deus e de suas Escrituras. Convertida a vara de Moisés (que também se chama de Arão) em serpente, convertidas também em serpentes as varas dos magos de Faraó, investiu a serpente de Moisés as outras, e diz assim o texto: Virga Aaron devoravit virgas eorum: a vara de Moisés comeu as varas dos egípcios (Êx. 7,12). Parece que não havia de dizer assim. As serpentes dos egípcios não as comeu a vara de Moisés, senão a serpente de Moisés, porque a vara não podia comer; senão a serpente. Pois se a serpente foi a que comeu, por que se diz que comeu a vara? Porque a serpente de Moisés tinha sido vara de Moisés, e para a serpente se chamar vara, basta que tenha sido vara, ainda que seja serpente. O mesmo passa neste mistério. A hóstia consagrada, que agora é corpo de Cristo, tinha sido pão; e para a hóstia, que é corpo de Cristo, se chamar pão, basta que tenha sido pão, ainda que seja corpo de Cristo. De sorte que, sem ser pão, se pode chamar pão, não porque o é, senão porque o foi. Da mesma maneira se chama pão, não porque o é, senão porque o parece. Refere o texto sagrado a criação dos planetas e astros celestes, e diz que fez Deus duas luzes, ou lumieiras, como lhes chama o texto, maiores que todas, que são o sol e a lua: Fecit duo luminaria magna (Gên. 1,16). Se consultarmos a astrologia, havemos de achar que a maior de todas as luzes celestes é o sol, e a menor de todas é a lua. Pois se a lua é o menor de todos os astros, por que se chama maior? Que se chame maior o sol, é devido esse nome à sua grandeza; mas chamar-se maior a lua? Sim. O sol chama-se maior, porque o é; a lua chama-se maior porque o parece. Todos os astros são maiores que a lua, mas a lua parece maior que todos, e basta que pareça maior, ainda que o não seja, para que se chame maior. Assim, nem mais nem menos, aquela sagrada hóstia não é pão, mas parece pão, porque ficaram nela os acidentes de pão em que topam os nossos sentidos; e basta que pareça pão, ainda que o não seja, para que se chame pão: Hic est panis.
E se acaso algum herege se não deixar convencer destes exemplos, por serem do Testamento Velho (que alguns deles negaram, como os maniqueus), no Testamento Novo temos os mesmos, e ainda, se pode ver, mais claros. Nas bodas de Caná de Galiléia, quando o arquitriclino, ou regente da mesa, provou o vinho milagroso, diz o evangelista S. João que gostou a água feita vinho: Gustavit architriclinus aquam vinum factam (Jo. 2,9). Na manhã da ressurreição, quando as Marias entraram no sepulcro, diz o evangelista S. Marcos, que viram um mancebo vestido de branco assentado à parte direita: viderunt juvenem sedentam a dextris, coopertum stola candida (Mc. 16,5). E este mancebo, diz S. Mateus que era um anjo: Angelus enim Domini descendit de caelo, et revolvit lapidem, et sedebat super eum20. Nestes dois casos tem o herege ambos os seus reparos; o vinho milagroso, depois da conversão, era verdadeiro vinho; o anjo que viram as Marias vestido de branco, também era verdadeiro anjo. Pois se o vinho verdadeiramente e na substância era vinho, como lhe chama ainda água o evangelista S. João: Aquam vinum factam? E se o anjo verdadeiramente e na substância era anjo, como lhe chama homem o evangelista S. Marcos: Viderunt juvenem sedentem? Ambos falaram como evangelistas, e ambos com verdade e propriedade natural. S. João chamau água ao vinho, porque ainda que já não era água, senão vinho, tinha sido água: Aquam vinum factam. E S. Marcos chamau ao anjo homem, porque ainda que não era homem, senão anjo, na figura e no trajo parecia homem: Juvenem sedentem, coopertum stola candida. O mesmo acontece na hóstia consagrada, e por isso falou dela Cristo, como os seus evangelistas falaram do vinho milagroso e do anjo disfarçado. Assim como a substância da água se tinha convertido em substância de vinho, e contudo se chama água depois da conversão, não porque fosse ainda água, senão porque o tinha sido, assim o corpo de Cristo no Sacramento se chama pão, não porque seja pão, senão porque o foi. E assim como o anjo na substância era verdadeiro anjo, e contudo se chama homem, porque vinha disfarçado em trajos de homens e parecia homem, assim o corpo de Cristo, debaixo das espécies sacramentais, se chama pão, não porque seja pão, senão porque parece pão: Hic est panis.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.