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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

É curioso observar quantos homens públicos do nosso país têm esta aparência apagada, vazia, vaga, abstracta, sonâmbula; e, todavia, eu que pelo Conde fui admitido a conhecê-los, sei quanto génio habita em segredo naquelas cabeças calvas ou cabeludas, a que os superficiais, não lhes conhecendo as secretas riquezas, acham um aspecto alvar. É que nós somos uma raça reservada, inimiga da ostentação e das atitudes: ao inverso dos franceses, que mal têm uma ponta de talento, tratam de o fazer brilhar, reluzir, deslumbrar, nós, com vastidões de génio no interior, desprezamos estas demonstrações vaidosas e guardamos para nós mesmos as nossas riquezas intelectuais. Assim faz o árabe, que cerca os seus jardins deliciosos e as suas habitações douradas de um muro negro de pedra e lama, de modo que se julga ver uma cabana onde realmente existe uma Alhambra! Mas não somos nós de raça árabe?

Por isso nunca o Conselheiro Gama Torres se dignou fazer à Bandeira Nacional a esmola de uma ideia. Deu-lhe, porém, a protecção do seu nome; dizia-se «a Bandeira do Gama Torres» e isto trazia ao jornal uma autoridade imprevista.

Muitas vezes, segundo me contou o Conde, durante os meses de Estio em que a política, refugiada na sombra das quintas ou na frescura das praias, dormita, o redactor da Bandeira, sem assunto para o seu artigo de fundo, recorria ao génio do Conselheiro, como um pobre envergonhado. Gama Torres, porém, colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e.23 bamboleando o crânio fecundo, murmurava surdamente:

– Ele há muitas questões!... Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há muitas questões...

Mas, repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma ideia. Não o censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu génio às grandes questões sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual – sempre que diante dele se falava de assuntos políticos – ouvi-lo murmurar soturnamente:

– Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!

E pareciam com efeito terríveis essas questões, de uma tenebrosidade de abismo, quando se via o olhar esgazeado com que ele parecia contemplá-las mentalmente.

Pouco tempo antes da sua morte, lembro-me de o ter visto, uma noite, em Casa do Conde, numa ocasião de crise ministerial, e nunca esquecerei a terrível impressão que me deixou aquele grande homem, de pé no meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente:

– Os senhores podem crê-lo, nem tudo são chalaças; ele há questões terríveis... A prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo... Questões terríveis.

E no silêncio apavorado que deixara aquela voz profética, em que se sentia a ameaça de graves tormentas sociais rolando do fundo do horizonte, aproximei-me instintivamente do Conde, como quem procura asilo seguro.

Tal era o director da Bandeira. Devo acrescentar que os únicos artigos que ele dava para o jornal anunciavam as suas jornadas para a Ericeira, ou os partos frequentes de sua esposa, ou ainda os progressos da sua doença de bexiga: artigos curtos, de resto, mas numa linguagem tersa, firme, grave, em que se sentia o homem de Estado!

A colaboração de Alípio Abranhos na Bandeira Nacional veio dar ao jornal anémico um sangue novo e vivo. Eu possuo – precioso presente do Conde – uma colecção da Bandeira, ricamente encadernada, e muitas vezes, abrindo-a com vene-ração, me repasto desses artigos, que, como prosa e como argumentação, lançam na sombra os famigerados Girardins, os Sampaios tão preconizados. Quereria transcrever alguns desses modelos de literatura jornalística, mas a estreiteza deste estudo apenas me permite extractar um trecho, por onde o leitor pressentirá o colosso, como Cuvier, por uma vértebra, adivinhou o mastodonte.

O jornal, a quem o ministério desse período recusara, sem razão, um honroso subsídio, fazia uma oposição amarga. O ministro apresentara um projecto de reforma administrativa. Estas reformas têm sido tão numerosas em Portugal – tal é o honroso esforço de todos os governos para um ideal melhor – que não posso precisar os princí-pios sobre que esta se baseava: debalde tenho perguntado aos homens públicos que então a discutiram e votaram: nenhum se recorda. Deduzo, porém, dos artigos da Bandeira, que o seu espírito era centralizador. Foi então que Alípio escreveu esse artigo, tanto mais admirável quanto é certo que ele concordava inteiramente com os princípios defendidos na reforma. Porém, jornalista de oposição, não duvidou fulminá-los – tal era a sua lealdade aos compromissos políticos.

Eis a conclusão desse trecho imortal:

(continua...)

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