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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Tinha vestido o seu paletó de alpaca clara, fumava chupando, com as faces por uma boquilha enorme, onde uma Vênus se torcia sobre o dorso de um leão domado.

- Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hem? Adeus! Quando for a Honra e Paixão cá mando um camarote à prima Luísa. Adeus! Saudinha!

Iam a sair. Mas o Conselheiro, à porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletó deitadas para trás, a mão pomposamente apoiada no castão de que representava uma cabeça de mouro, disse com gravidade:

- Esquecia-me, Jorge! Tanto em Évora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhedigo por quê: devo-lho como primeiros funcionários do distrito, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações científicas!

E curvando-se profundamente:

- Al rivedere, como se diz em Itália.

Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco, Luísa foi abrir as janelas; a noite estava quente e imóvel, de luar.

Sebastião pusera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.

Tocava admiravelmente, com uma compreensão muito fina da música. Outrora compusera mesmo uma meditação, duas valsas, uma balada: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscências, sem estilo. - Da cachimônia não me sai nada - costumava ele dizer com bonomia, batendo na testa, sorrindo - mas lá com os dedos!...

Pôs-se a tocar um Noturno, de Chopin. Jorge sentara-se no sofá ao pé de Luísa.

- Já tens pronto o teu farnelzinho!... - disse-lhe ela.

- Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com conhaque.

- E não te esqueças de mandar um telegrama logo que chegues!

- Pudera!

- Tu daqui a quinze dias, vens!

- Talvez...

Ela teve um gesto amuado.

- Ah, bem! Se não vieres vou ter contigo! A culpa é tua.

E olhando em redor:

- Que só que vou ficar!

Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:

- Psiu, Sebastião! A malaguenha, faz favor?

Sebastião começou a tocar a malaguenha. Aquela melodia cálida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Málaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrelinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo de um lampião suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de veludilho encarnado batem as mãos em cadência; e ao largo dorme uma andaluza de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas românticas que roçam as paredes sombrias vielas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santíssima cantando as horas...

- Muito bem Sebastião! Gracias!

Ele sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapéu desabado:

- Então amanhã às sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro.

Bom Sebastião!

Foram debruçar-se na varanda para o ver sair. A noite fazia um silêncio alto, de uma melancolia plácida; o gás dos candeeiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e doce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clarabóia reluzia, a distância, como uma velha lâmina de prata; nada se movia; e instintivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria.

- Que linda noite!

A porta bateu, e Sebastião debaixo, na sombra:

- Dá vontade de passear, hem?

- Linda!

Ficaram à varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranqüilidade, pela luz. Puseram-se a falar baixo da jornada. Àquela hora onde estaria ele? Já em Évora num quarto de estalagem, passeando monotonamente sobre um chão de tijolo Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negócio com o Paco, o espanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil réis, e teriam então a doçura do mês de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Buçaco, trepar aos altos, beber a água fresca das rochas, sob a espessura úmida das folhagens; irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na areia, no bom ar cheio de azote vendo o mar unido, de um azul metálico e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os ombros muito chegados; uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:

- Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!

(continua...)

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