Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

P. S. — Acabo de receber uma longa carta de F... Esta carta, escrita há dias, só hoje meveio à mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante mis siva. Aí tem,senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte dessa carta, da qual depois de amanhã lhe enviarei o resto. Publi que-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento nesteobscuro sucesso; é um vestígio luminoso e profundo. F... é um escritor público, e descobrir pelo estilo um homem é muito mais fá cil do que reconstruir sobre um cabelo a figura de uma mulher. É gravíssima a situação do meu amigo. Eu, aflito, cuidadoso, he sitante, perplexo,não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me à decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autógrafo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem.. se puderem. Adeus!

INTERVENÇÃO DE Z. Nota do Diário de Notícias . — No original da carta publica da ontem havia algumaspalavras a lápis, nas quais só fizemos re paro depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação:

A fotografia do mascarado foi feita em casa de Henri que Nunes, Rua das Chagas, Lisboa. Talvez aí possa haver noticia do sujeito fotografado.

Antes de darmos à estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos foi ontemenviada pelo médico, é dever tornar conheci da uma outra importantíssima que recebemos pela posta interna, assinada com a inicial Z, e que temos em nosso poder há já três dias. Estacarta, que tão estreitamente vem prender-se na histó ria dos sucessos que constituem o assunto desta narrativa, é a se guinte:

Senhor redactor do Diário de Notícias. — Lisboa, 30 de Julho de 1870. — Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quase toda a gente em Lisboa, as cartaspublicadas na sua folha, em que o doutor anónimo conta o caso que essa redacção intitulou

O Mistério da Estrada de Sintra. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreocupada que se liga a um canard fabricado com engenho, a um romance à semelhança dos Thugs e de alguns outros do mesmo género com que a veia imaginosa dos fantasistasfranceses e americanos vem de quando em quando acordar a atenção da Europa para um sucesso estupendo. A narração do seu periódico tinha sobre as demais que tenho li do omérito original de se passarem os sucessos ao tempo que se vão lendo, de serem anónimas as personagens e de estar tão secretamente encoberta amola principal do enredo, que nenhumleitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamen te romanesco, que o autor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o idealmais perfeito, o tipo mais acabado do roman feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as ini ciais de um nome de homem — A. M. C. — acrescentando-seque a pessoa designada por estas letras é estudante de medicina e na tural de Viseu. Eu tenho um amigo querido com aquelas iniciais no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Viseu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia, portanto, o intuito de fa zercobardemente uma insinuação infamíssima. Isto não é lícito a romancista nenhum.

A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tédio. Saindo de casa poucodepois da leitura do seu periódico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr- me à sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir, quanto antes, àredacção do

Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo.Em casa do meu amigo acabo, porém, de saber, cheio de con fusão e de surpresa, que ele desapareceu e que é ignorado o seu destino!

Este desaparecimento e a coincidência achada na carta do doutor levam-medesgraçadamente a acreditar que por estranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente en volvido neste tenebroso negócio. A data do desaparecimento delecondiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu corres pondente. É claro q ue há, pois, em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.

Serei tristemente obrigado a ter por verídica, no todo ou em parte, a notícia que leio na sua folha? Julgo do meu dever assegurar o seguinte: Não seio que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa ca sa desconhecida, tendouma chave dela, martelo e pregos. Não sei porque se declarou autor do assassinato, negandoo depois. Ignoro a íntima verdade destas contradições.

Mas o que sei, aquilo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, masnumerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato ele esteve, até quase de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja.Saiu talvez às três horas da noite.

Declaro também, e isto pode ser igualmente apoiado por se guras testemunhas: que às nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto dele. Ainda dormia, acordousobressaltado à minha voz, e tornou a adormecer enquanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.As donas da casa que o hospedam disseram-me que ele entra ra pela madrugada.

— Ali pela volta das três e meia — conjecturavam elas. Ora da minha casa, de onde saiu às três, até casa dele, onde en trou às três e meia, ocaminho que é longo, ocupa justamente este espaço de tempo.



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →