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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Então todo o rosto barbudo do Carvalho exprimiu uma inquietação. Agora percebia. Godofredo não viera ali só desabafar, viera arranjar uma testemunha: e tomava-o logo um susto de burocrata, um medo da lei, o receio de se comprometer. E o seu egoísmo revoltou-se diante das coisas violentas e perturbadoras que pressentia. Quis atenuar, logo procurou explicações. Enfim, se Godofredo não vira mais nada... Se era só estarem na sala... Podia ser uma brincadeira, uma tolice...

Godofredo, febrilmente, procurava nas algibeiras. O piano dentro caíra agora a sons vagos, como de dedos que tenteiam, procuram uma melodia esquecida. De repente um bocado do Rigoletto rompeu, com um arranque gemido e soluçante. E Godofredo, que achara enfim a carta, pô-la diante dos olhos de Carvalho. O outro leu a meia voz:

—“Ai Riquinho da minha alma, que beijinhos tão bons...”

E, como se aquelas palavras, ouvidas na voz do outro, lhe parecessem mais infames que quando ele as lera, não se conteve, elevou a voz, gritou:

— Não, isso com sangue, é necessário um duelo de morte...

Carvalho, inquieto, fez-lhe sinal que se calasse. E como o piano parou, um momento ficou escutando, receando que o grito do outro tivesse sido ouvido:

— É a Mariana – disse ele indicando a sala... – Pôr ora é melhor que ela não saiba...

Depois voltou a ler a carta, lentamente: e palpou o papel, revirou-o, conservando-o nos dedos com uma curiosidade excitada, como se sentisse ali o calor dos beijinhos...

E Godofredo procurou ainda mais pelas algibeiras, descontente de Ter esquecido as outras cartas. Porque havia ainda outras piores! E citou frases, exibiu toda a tolice, todo o descaro de Ludovina, tomado agora apenas do desejo de vencer bem o Carvalho que sua mulher era uma prostituta.

— De resto ele não negou, disse a tudo que sim! — O que, vocês falaram?

Então, depois duma hesitação, Godofredo acabou a confidência, a sua idéia de um suicídio à sorte, o encontro que tivera com o Machado. O Carvalho, que caíra para cima do sofá, como que brado, esmagado pôr todas aquelas revelações, abria uns grandes olhos na sua face queimada de África, espantado de que aquelas coisas violentas, terríveis, se estivessem realmente passado, e fossem ditas ali, no seu tranqüilo prédio do Rossio...

Quando Godofredo contou que o Machado achara aquilo insensato, Carvalho não se conteve.

— De doido! De puro doido! – exclamou erguendo-se.

E, gesticulando pelo estreito gabinete, procurava uma frase para classificar aquilo, falava ainda de doidice, terminou pôr dizer que semelhantes coisas só se viam no Rocambole:

— Vem das na mesma – disse Godofredo. – Porque eu exijo que o duelo seja à pistola, uma só carregada, e tirada ao acaso...

Carvalho deu um pulo.

—Uma só pistola, ao acaso? Mas isso é um assassinato. Não, escusas de contar comigo. Não há motivo para isso... Mas nem que houvesse numa dessas não me metia eu!

Vendo-se abandonado, Godofredo revoltou-se. Então, naquela crise terrível, ele, o seu melhor amigo, deixava-o assim ficar mal? De quem melhor amigo, deixava-o assim ficar mal? De quem se havia de valer? A quem havia de confiar a sua honra?

O outro despropositou. Falou outra vez de assassinato, de crime e de prisão; terminou pôr dizer:

— Se tu me viesses convidar para ir deitar fogo ao Banco de Portugal achas que eu devia aceitar?...

Godofredo queria explicar que não era a mesma coisa: as duas vozes elevavam-se, entremeadas – e subitamente um silêncio do piano fê-los calar a eles também. Uma conversação elevou-se dentro na sala: depois as vozes elevaram-se tmbém, e havia uma alteração, em que as palavras de “saia branca”, “sua porca”, “a senhora não disse nada” chegaram com um som irritado. Um momento Carvalho escutou. Depois, encolheu os ombros; havia de ser algum novo desleixo da criada, uma desavergonhada, que tinham havia um mês, e que não fazia nada com jeito. Depois sentindo bater uma porta, dentro, não se conteve, foi ver.

Godofredo, só um momento, sentiu como um cansaço invadi-lo. Desde a véspera os seus nervos vibravam, retesados, como as cordas duma rabeca muito afinada. Tudo até ali lhe pareceu fácil, e a sua vingança segura. Mas agora, um depois do outro, recebia dois choques. O outro não quisera o suicídio à sorte; este não queria duelo de morte – e alguma coisa dentro dele começava a afrouxar, como se a sua alma se fosse cansando de estar há tantas horas, numa atitude sombria de vingança e massacre. E vinha-lhe um começo de enxaqueca, a enxaqueca que desde a véspera o ameaçava. Sentou-se no sofá, com a cabeça entre as mãos; um suspiro levantou-lhe o peito.

Carvalho entrou, vermelho, excitado. Tinha havido uma cena, ele pusera a criada fora. E então destemperou, queixou-se daquela sorte que o não deixava Ter uma criada decente, tudo uma súcia de desavergonhadas, porcas, e que o roubavam. Tinha saudades das pretas, não havia nada como criadas pretas...

— E então, dize lá, que pensas tu, de tudo isso? – exclamou com um ar desanimado Godofredo.

Carvalho encolheu os ombros.

— O melhor é deixar tudo como está, tua mulher em casa do pai, tu na tua, e o que lá vai, lá vai...

(continua...)

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