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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Às nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacinto para escrever a minha boa tia Vicência, enquanto ele ficara no toucador com o manicuro que lhe polia as unhas, passamos nesse delicioso palácio, florido e em gala, pôr bem corriqueiro susto! Todos os lumes elétricos, subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfiança daquelas forças universais, pulei logo para a porta, tropeçando nas trevas, ganindo um Aquid’el-rei! que tresandava a Guiães, Jacinto em cima berrava, com o manicuro agarrado aos pijamas. E de novo, como serva ralassa que recolhe arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com lentidão. Mas o meu Príncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um engenheiro à Companhia Central da eletricidade doméstica. Pôr precaução outro criado correu à mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo desenterrava já dos armários os candelabros abandonados, os pesados castiçais arcaicos dos tempos incientíficos de D. Galião: era uma reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, à ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilização. O Eletricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Eletricidade se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira dois cotos de estearina.

A Eletricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e só depois duma busca furiosa e praguejada o encontrei caído pôr trás da cama!), todo o 202 refulgia e os Tziganes, na antecâmara, sacudindo as guedelhas, atiravam as arcadas duma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os imensos Personagens da tapeçarias, Príamo, Nestor, o engenhoso Ulisses, arfavam, buliam com os pés venerandos!

Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Trèves, que acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa), percorria maravilhada os Aparelhos, os Instrumentos, toda a suntuosa Mecânica do meu supercivilizado Príncipe. Nunca ela me parecera mais majestosa do que naquelas sedas cor de açafrão, com rendas cruzadas no peito à Maria Antonieta, o cabelo crespo e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patrício, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir dum regato. Direita como num sólio, a longa luneta de tartaruga acercada dos olhos miúdos e turvamente azulados, ela escutava diante do Grafofone, depois diante do Microfone, como melodias superiores, os comentários que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente torneados, em que atribuía a Jacinto, com astuta candura, todas aquelas invenções do Saber! Os utensílios misteriosos que atulhavam a mesa de ébano foram para ela uma iniciação que a enlevou. Ó, o “numerador de páginas”! Ó, o “colador de estampilhas”!

A carícia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava os endereços dos fabricantes para se prover de todas aquelas utilidades adoráveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e fácil! Mas era necessário o talento, o gosto de Jacinto, para escolher, para “criar!” E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ela ofertava o fino mel. Afagando com o cabo de luneta o Telégrafo, achou a possibilidade de recordar a eloqüência do Historiador. Mesmo para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do Fotógrafo, e acerca de “vozes de amigos que é doce colecionar” uma lisonjazinha redondinha e lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vai atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ela nutria uma vaidade. Sôfrego de outro rebuçado, acompanhei a sua cauda sussurrante e cor de açafrão. Ela parara diante da Máquina de contar, de que Jacinto Já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E de novo roçou os buracos de onde espreitam os números negros, e com o seu enlevado sorriso murmurou: - “Prodigiosa, esta prensa elétrica!...”

Jacinto acudiu:

-Não! Não! Esta é...

Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não compreendeu nenhum aparelho do meu Príncipe! Madame

de Trèves não atendera a nenhuma dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete de suntuosa Mecânica ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeição, a Arte de Agradar. Toda ela era uma sublime falsidade. Não escondi a Danjon a admiração que me penetrava.

O facundo Acadêmico revirou os olhos bugalhudos:

-Ó! e um gosto, uma inteligência, uma sedução!... E depois como se janta bem em casa dela! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor, verdadeiramente superior!

Deslizei para a biblioteca. Logo à entrada da erudita nave, junto da estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei a saudar o diretor do Boulevard e o Psicólogo-feminista, o autor do Coração Triple, com quem na véspera me familiarizara ao almoço, no 202. O seu acolhimento foi paternal; e como se necessitasse a minha presença, reteve na sua mão ilustre, rutilante de anéis, com força e com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aqueles senhores, com efeito, celebravam o seu Romance, a Couraça, lançado nessa semana entre gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada à Van-Dick e que parecia postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrara tão fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psicologia Experimental! Todos concordavam, se apertavam contra o Psicólogo, o tratavam pôr “mestre”. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarela da Couraça, mas para quem ele voltava os olhos pedinchões e famintos de mais mel, murmurei com um leve assobio: - “uma delícia!”

(continua...)

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