Por Coelho Neto (1924)
- Não as tens porque as buscas materialmente. No escuro não poderás achar o perdido; procuracom luz e a Luz, para pesquisas tais, e a fé. Espera, continua a esperar, espera sempre e um dia, talvez, quem sabe...!
Como pensas? Concentrando-te, isto é: encerrando-te em ti mesma. É em nos mesmos que encontramos os nossos mortos. Eles vêm a nos, como a luz; nós não podemos ir a eles. Achas que Deus não é bom porque cerra, em impenetrável sigilo, o segredo da Morte. Engano teu. Que seria a vida, senão horrenda tortura, se tal mistério não existisse? Fosse o Além o Nada, o inferno ou o Paraíso... Se fosse o Nada, todos viveriam a lamentar o perecimento, a destruição definitiva; se fosse o inferno, que dor saberem todos que os aguardava o tormento; se fosse o Paraíso, não haveria felicidade na terra porque, comparando a via contingente e sofredora com a delicia da existência paradisíaca, tudo fariam para desertar este mundo precário, com ânsia do outro, de eternidade feliz. E os berços, que se aureolam de sorrisos, cercar-se-iam de lamentações, porque viver seria tanto como penar.
Achas que Deus não é bom, porque não consente que o vejas. O nosso egoísmo é que nos agrava o sofrimento. Tu, em verdade, não choras o filho que deixou de viver, que está livre de todos os males que nos torturam: choras o filho que perdeste, o bem que te foi levado, o amor que te falta. Choras sobre ti mesma e julgas chorar sobre o seu túmulo.
- E isto basta-te? consola-te?
- Sim, basta-me, consola-me como me basta, para consolação de tudo quanto tenho sofrido, acerteza, em que estou, de que Deus existe. E se tu invocas o espírito do morto é porque estás certas de que ele não desapareceu com a morte, não se desfez como o corpo e agora, mais do que quando convivia conosco, triunfal, puro e eterno, tão puro como o teu amor, em que ele se encarnou, e eterno, tão puro como a Essência a que regressou.
- E achas que faço mal em trazê-lo assim enfeitado de flores?
- Mal? Por que mal? É um culto e todos os cultos, quando neles há sentimento, como nesse emque pões toda a alma, são belos e dignos de respeito.
Falo-te assim para que não chores tanto. Flores são carinhos; lágrimas são tormentos e, se ainda o chamas de filho e o queres venturoso, porque o hás de perturbar, entristece.
SOMBRAS
Que resulta da nossa aliança com a luz? Sombra, nada mais.
Alegria é luz e assim como na maior claridade as sombras tornam-se mais negras, mais a tristeza se agrava se dela, em volta, a alegria exulta,
O silêncio é alivio: calma. Na quietude em que me refugio chego a não acreditar na tua morte porque te sinto em mim, comigo, como se vivo foras.
À noite as sombras não aparecem; todas se recolhem aos corpos que as expuseram. De dia, porém, destacam-se, prolongam-se com a terra.
No apogeu meridiano, não suportando a claridade fúlgida, acolhem-se ao de que saíram, como se concentra na dor um coração ferido se, em torno dele, há expansões de vivida alegria. Felizmente, porém, o sol pouco se demora no zênite e logo que declina projetam-se, de novo, as sombras, até que todas se fundem em uma única, que é a noite.
Isolo-me, não porque aborreça a vida e inveje a felicidade alheia, mas para forrar-me no alvoroço da alegria.
Que o coração adormeça tranqüilamente, no silêncio, e sonhe, como quem dorme.
Sonhando, anda que em vigília, - porque recordar é sonhar de olhos abertos - vê o que foi, reconstitui, um a um, os dias venturosos até aquele que ficou eterno na memória, como jazem imóveis sobre as horas que não soam mais os ponteiros de um relógio cuja máquina parou.
O PIANO
Seis meses já haviam passado e, todavia, ninguém ousava abrir o piano. Mais do que escrúpulo havia medo.
Como que se temia o instrumento: negro, alongado a um canto da sala, em forma de altar, tendo sempre em cima um vaso de flores.
Rondávamo-lo sem ânimo de o tocar. De quando em quando uma das meninas folheava um álbum, de preferência o colecionado por ele, com as peças de sua predileção. Marejavam-se os olhos e, em silêncio, tornavam os volumes aos seus lugares, na estante.
E o piano permanecia mudo.
Um dia, porém, com receio de que as cordas se estragassem, abrimo-lo e a enervação metálica do instrumento rebrilhou ao sol.
Levantada a tampa do teclado, como um lábio que se arregaçasse em riso irônico, o fio das teclas apareceu ebúrneo.
Acercamo-nos todos do piano, olhando-o como se o víssemos pela primeira vez e dele esperássemos pressagamente revelação de segredo sombrio. Um momento ali ficamos, tácitos e quedos.
A mãe foi a primeira a afastar-se; as meninas seguiram-na às surdas, como se temessem, com o rumor dos passos, despertar o mistério. Bem sabiam elas que o instrumento havia de as fazer sofrer e a mim, e a todos, à própria casa que ele, dantes, alegrava com as suas melodias. Seria pelo som? Se por tal fosse por que não nos comoveriam as vozes de tantos outros pianos que soam na vizinhança e só a daquele nos havia de entristecer?
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.