Por Coelho Neto (1897)
O espírito das crianças refugia-se no sono como o dos velhinhos – o primeiro porque dele saiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o procura como abrigo. Não o despertes, deixao dormir.
- É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando ele assim fica, meu coração pára retransido. - É a serenidade. Só o sono dos maus transmite ao corpo a convulsão do pesadelo.
O sono é uma visita à morte. Os inocentes fazem-na sorrindo, os pecadores fazem-na espavoridos.
Não receies que ele passe tão cedo à eternidade de onde veio. Ainda que não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse ele tão da terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.
Não desenterras a semente por não a veres à flor do solo, deixas que ela venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.
O sonho é uma incubação. Por que não sonha? porque não tem impressões. O sonho é como um reflexo em que há eco, é a reprodução confusa da vida com a repercussão indistinta das vozes e dos ruídos. Há quem veja presságios no sonho como o nômade vê realidades na miragem. Com que há de sonhar quem não tem consciência da vida? Deixa-o dormir. É a noite que a floresta cresce e a criança é como a árvore.
O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigília, uma túnica diáfana sobre a treva – não desperta. As estrelas são meigas porque a noite deve ser tranqüila para que a natureza descanse. Deixa-o dormir.
Conserva-te imóvel e calada, não perturbes a vida misteriosa. Demais, ele é o Eterno. A morte passa por ele como a lâmina de uma espada por um raio de sol. Deixa-o dormir.
Bem sei que o egoísmo das mães chega a insurgir-se contra as leis de Deus; não te insurjas tu, que o geraste. Ele precisa rever a humanidade entrando pela vida e gozando, saindo, talvez, pela morte com sofrimento. - Meu senhor! Exclamou a Virgem estendendo as mãos, comovida.
- São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oráculos sobre aquele que tem o destino da vida em sua mão direita! São palavras que digo. Deixa-o dormir.
PALAVRAS DE MARIA
Como eu agora compreendo que se viva escravizada a um sorriso!
Quando tenho meu filho ao colo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a cor da púrpura e veste-se de branco para não macular os lábios inocentes, toda a minha vida nele se concentra.
A felicidade e a desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento que me alvoroça e nos presságios estranhos que me ocorrem. É preciso ser mãe, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.
A alma sai-me do corpo e fica junto do infante. Se me arredo um momento sinto-me logo atraída como por uma pesada corrente que se me prende ao coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com ele dentro dos olhos como quem fita um objeto ao sol e depois o vê em toda a parte, ainda na treva mais densa.
Dantes, quando as mães falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava exageradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!
O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: “Meu filho!” São as que o coração me inspira, são as que me agradam ouvir.
Elas fazem um giro alegre como um casal de passarinhos brincando. Saem-me dos lábios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu coração e me tornam à boca.
Meu filho! E não há todo um mundo de amor dentro delas? Que mais é preciso para a ventura?
Quando as suas pálpebras se descerram inclino-me e busco ver nas suas pupilas – que são agora os meus espelhos – o que elas contém. Fico tão perto que elas só a mim reproduzem. Do mais tenho ciúme, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.
Quando ele estremece, tremo. Quando ele sorri é tão grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio. Ai! de mim quando ele chora.
Não tendes notado que eu sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de alimento?
Não é que tenha fome, não; mas penso nele e, como é preciso que ele encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celeiro.
Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que ele faça surpreendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, procurando readormecê-lo ou acalentando-o, se chora.
Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo no mundo, só dele me lembro. Onde ele está aí é que me apraz viver. O seu berço é o oásis em imenso deserto.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.