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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Na fechadura do armário via-se uma pequena chave. O criado deu-lhe volta.

Um dos espelhos deslocou-se.

— À direita — murmurou o lacaio —, à direita... segundo o trato...

E colocou no canto direito da primeira prateleira do armário o preciosíssimo cofre...

— Agora, corre por conta dele — balbuciou ainda... — A chave eu levo... direi que não vi o particular, que é quem deve vigiar estas coisas...

Assim falando, o lacaio trancou a porta e guardou a chave. Apagou em seguida o gás e deixou a sala.

Ao sair do palácio, enfiava o pé no estribo do cavalo em que devia voltar para a casa do marquês, despediu-se dos homens que estavam à porta:

— Podem ir dormir... o sr. duque não volta hoje; vai amanhã para Anatópolis. Boa-noite.

Os criados seguiram o conselho do companheiro e, quando o viram desaparecer no escuro do parque, recolheram-se e trancaram as sólidas portas do palácio...

Uma hora depois, só duas pessoas andavam acordadas por esses lugares:

Manuel de Pavia e Inácio.

No dia imediato à noite em que o leitor viu empenhados na sua empresa criminosa os dois homens de serviço do duque de Bragantina, foi Inácio a primeira pessoa que entrou na grande sala do armário.

A claridade pálida das cinco horas invadia o salão e iluminava modestamente as paredes. Estavam três janelas abertas. Inácio corre para fora, gritando:

— Três janelas abertas! — exclamaram espantados os dois criados.

— Não é isso só!... Vejam aqui o armário arrombado... furtaram alguma coisa...

— Roubaram! Roubaram!

Mais outros criados se apresentaram.

— É preciso acordar o mordomo — dizia um.

— É preciso chamar o particular do duque que passou a noite fora do palácio.

— É preciso! — afirmava fortemente Inácio. — É preciso saber-se o que roubaram e quem foi o ladrão!

— Vamos acordar o mordomo. — Chamem o particular.

Em poucos instantes, apresentou-se o mordomo assustadíssimo, metido num enxovalhado robe de chambre de grandes ramagens cor de rapé, com os olhos cerrados ainda pelo chumbo da soneira da manhã e a cara amarrotada de quem não se lavou ainda.

O mordomo levantou-se para acudir ao chamado insistente de um criado, que o fora prevenir de que tinham entrado ladrões no palácio.

— Oh! Como deixaram abertas as janelas? — gritou ele, dirigindo-se aos criados.

— Eu pensei que elas estivessem fechadas — respondeu Inácio com voz um pouco alterada. — Demais, quem costuma fechar este lado do palácio não sou eu... Quando examinei, as portas estavam encostadas... Esqueci-me de ver os trincos...

A voz de Inácio, comovia pelo medo que ele tinha de se ver apertado num interrogatório, foi-lhe útil, porque o mordomo supôs que aquilo fosse receio de ser despedido.

— Pois você está arranjado, meu amigo... Devia ter examinado... Está arranjado...

— Mas, sr. mordomo...

— Não sei... Você vai pagar caro o descuido.

— Olhem esta corda!... — gritou uma pessoa que fora procurar pelas janelas vestígios dos ladrões. — Olhem a corda!

Todos, inclusive o mordomo e Inácio, correram para a janela.

— Os tratantes! — disse sem mais exame o mordomo. — Subiram por esta corda! Que atrevidos!... E vocês não ouviram barulho?

— Nós dormimos lá embaixo... Além disso, os reposteiros não deixam ouvirse o barulho que se faz na sala.

— O que dirá o sr. duque?... — diziam todos olhando para a corda que desaparecia pela hera da parede.

Aquele fato da escalada às janelas e do arrombamento do armário incomodava extraordinariamente o mordomo. Não menos incomodados se achavam os criados, certos de que seriam eles os responsabilizados...

Sem saber que resolução tomar, olhavam para a cara do mordomo. O mordomo estava lívido.

— Ainda precisamos verificar o que é que os ladrões levaram — disse o mordomo. — Só o particular poderá nos informar... Foram já chamá-lo? — Sim, senhor — responderam simultaneamente vários criados.

Como para confirmar esta resposta, fez-se uma grande bulha num aposento vizinho e precipitou-se na sala, arquejante, o particular do duque.

Era um pobre velho de mais de sessenta anos, que estava desde longa data a serviço do duque.

Sempre que este fazia qualquer viagem, o particular retirava-se do palácio e ia passar algum tempo com a família, que residia no arrabalde de Santo Cristo, a alguma distância da quinta.

Como o duque dissera na véspera que, da casa do marquês de ***, seguiria para Anatópolis, o particular, apenas o amo saiu com a duquesa para o baile, abandonou o palácio e seguiu para a casa da família.

Nenhum crime havia no procedimento do particular. A sua presença na quinta só era necessária quando aí estava o duque.

(continua...)

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