Por Adolfo Caminha (1896)
Nisso pára um carro à porta. Todos os olhares volveram-se para a entrada da sala. D. Branca e o secretário ergueram-se. Mas, antes que se aproximassem da escada, já o Raul anunciava indiscretamente que "era o Dr. Condicional!"
— Oh, o Manhães! — acudiu Furtado.
— Eu mesmo, caro amigo, eu mesmo. Venho dar-lhe os parabéns pelo glorioso dia!
Movimento nas cadeiras; leve sussurro.
— Ah, esse é que é o autor do Juca Pirão?—- fez um dos rapazes do comércio.
— Sei que não vim de bonne heure... — tornou o literato dirigindo-se para o grupo, consertando a sobrecasaca. — Em todo o caso, antes tarde que nunca!...
Apresentações, cumprimentos, e o Dr. Condicional, dando jeito ao pincenê, sentou-se. Trazia um grande buquê de violetas na lapela.
Novo carro parou quase imediatamente. Furtado, que se ia acomodando, ergueu-se outra vez. Outra vez o Raul adiantou-se para anunciar, agora com toda a discrição e respeito, "o Sr. visconde de Santa Quitéria!".
— Oh!
A exclamação foi geral.
— O visconde de Santa Quitéria!
— Logo vi que não faltava! — disse Furtado.
E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial, exclamando também: — Oh!
Era, com efeito, o visconde de Santa Quitéria, o grande capitalista, diretor do Banco Luso-Brasileiro.
Bem que todos tinham ouvido parar um carro!
Pelo menos naquele instante, ninguém se lembrou do ilustre poeta que acabava de entrar. A chegada do visconde enchia a todos de surpresa e de alta consideração. Entre a poesia e o capital - preferia-se o capital, tanto mais quanto o diretor do Banco Luso não representava simplesmente um capitalzinho de alguns mil-réis. Não. O Santa Quitéria tinha fortuna para mais de seis mil contos!.
O ilustre personagem estacou à porta, fez um cumprimento geral com a cabeça e entrou, muito correto, admirável de mocidade e de frescura. D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos seus sorrisos.
Era um perfeito cavalheiro, o visconde. Residia ora em Petrópolis, quando já não suportava o calor na Corte, ora no seu rico palacete das Laranjeiras, pelo inverno chuvoso e nublado. Para as transações da Bolsa tinha escritório na Rua da Alfândega, onde ocupava uma saleta de frente e uma alcova com toilette de mármore e outros objetos indispensáveis ao asseio de um homem. Idade média (pouco mais de quarenta anos), muitíssimo conservado, sem um fio branco na cabeça, olhos vivos, todo ele irrepreensível, tinha fama de beleza entre as mulheres, que o admiravam, não tanto pela fortuna, mas especialmente pela correção do trajo e pelo estranho conjunto das linhas fisionômicas. Muita gente achava-lhe pontos de semelhança com Luís Furtado que se orgulhava disso, que era uma honra para ele, uma grande honra! Por duas vezes o tinham saudado na Rua do Ouvidor julgando cumprimentar o Santa Quitéria: Sr. visconde!... — e ele correspondera delicadamente. Era um engano que o honrava.
O visconde descera de Petrópolis na manhã daquele dia para não faltar ao convite do secretário.
— Dou-lhe os meus parabéns — disse ele a Furtado. E voltando-se para D. Branca, antes de sentar-se: — Peço licença a V. Exa., para um presentezinho à pequena, uma simples lembrança.
D. Branca, humilhada, recebeu a dádiva do banqueiro, que este entregou dentro de uma caixinha de veludo grená. Era uma jóia de ouro e brilhante, uma linda medalha para pescoço.
— Oh, Sr. visconde!...
D. Sinhá quis logo ver o que era:
— Veja, mamãe, veja que bonita!
A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou, cautelosamente, o brinde, assestou o lorgnon e achou, com efeito, lindo, muito lindo!
A jóia correu de mão em mão, arrebatando um - oh! - de cada boca. O Dr.
Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante na vitrina do Farani. D. Branca não se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde.
— "Sua amiga Adelaide, esposa do Sr. Evaristo de Holanda, comprovinciano e amigo de Furtado..."
E a conversa continuou animada, picante, com um acentuado caráter de brasileirismo, entrecruzando-se as vozes, as opiniões, os ditos espirituosos.
O Dr. Condicional, que se sentara ao lado do desembargador, fez a apologia do Instituto Histórico, do que o velho magistrado era membro, discorrendo sobre os últimos trabalhos do barão da Corte Real, apresentados ao Instituto, e sobre os progressos da geografia e das letras no nosso país.
Lousada, inclinava a cabeça para ouvir melhor, e saboreava os elogios de Valdevino Manhães como quem escuta uma música voluptuosa, uma vaga harmonia encantadora, os olhos entrecerrados, meio adormecidos, a boca imóvel, serenamente imóvel...
De repente estalava uma risada e ele abria os olhos, com um sustozinho, pigarreando.
— E V. Exa. já apresentou algum trabalho, Sr. Desembargador? — inquiriu, por delicadeza, o poeta.
— Ainda não, meu amigo, ainda não, mas tenho pronta uma refutação aos Irmãos Pinzón do conselheiro Lisboa.
— Uma refutação?
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.