Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Francisco Fidêncio lembrara-se de matar as longas horas desocupadas lendo alguma coisa. Mas que leria? Os últimos jornais chegados do Pará já haviam sido inteiramente devorados, lera-os todos e nada achara neles que lhe prendesse a atenção, e menos ainda merecesse segunda leitura. Os de Manaus também nada traziam de novo. As costumadas descomposturas ao presidente da província, uma notícia ou outra e os anúncios banais, em letras grandes, espaçadas. De livros estava farto. Bastava-lhe a maçada de os ler obrigatoriamente na aula, todos os dias, para lecionar os discípulos. Não iria agora dar-se ao luxo de estudar a lição do dia seguinte! Nada, que ele não era o seu colega Aníbal Americano!

Podia escrever para ocupar-se. Foi à pequena mesa do canto da sala, abriu uma gaveta, tirou algumas folhas de papel, caneta e pena, puxou a cadeira de palhinha, sentou-se e traçou sobre a alvura do papel em tiras as seguintes palavras:

“Amigo redator”.

Depôs a pena, cruzou os braços sobre a mesa, e pôs-se a soletrar aquelas palavras, muito aborrecido.

Que diabo escreveria ele? Contaria o mau tempo que reinava em Silves, a falta do pirarucu e a carestia da farinha? Que lhe importava isso? Que interesse tinha de noticiar coisas tão banais aos seus leitores, e que graça achariam estes em conhecer tais borracheiras?

Só havia um assunto possível, em que poderia espraiar-se, lançando um belo artigo capaz de fazer sensação. Esse assunto era padre Antônio de Morais. Mas havia um mês que padre Antônio chegara, e Chico Fidêncio ainda não pudera formar dele um juízo definitivo, nem achara motivo para um pequeno artigo. Bem não queria dizer mal do vigário, porque isso era contra os seus princípios. Para dizer mal era preciso uma base, um motivo, um pretexto ao menos, e essa base, esse motivo, esse pretexto não aparecia.

Por isso andava a Chico Fidêncio muito descontente, por isso, talvez, se agravara a hepatite.

Todo aquele mês passara o padre Antônio de Morais em projetos de reforma da paróquia, em assear o templo, em confessar beatas, examinar crianças ao catecismo, dizer missas e cantar ladainhas. A população estava muito satisfeita. Nunca vira um vigário assim tão sério e zeloso, tão ativo e pontual. Pela manhã a missa, rezada devagar, a durar vinte minutos pelo menos, macerando os joelhos do povo nos tijolos da capela-mor. Em seguida, a confissão longa, minuciosa, cheia de conselhos patemais e de repreensões bondosas. A Maria Miquelina fora confessarse, a mandado do professor, e voltara maravilhada. Ao meio-dia a aula dos pequenos; à noite a ladainha, puxada pelo vigário em pessoa, à luz duvidosa das lâmpadas de azeite de mamona...isto um mês a fio... uma delícia! no dizer da senhora D. Eulália. Beatas velhas e beatas novas bebiam os ares pelo padre vigário, rapagão de vinte e dois anos, simpático, bem apessoado e de mais a mais um santo! Sempre sério, bondoso, paternal, caminhando de olhos pregados no chão, falando baixinho, minha filha, minha irmã, em voz suave e melíflua, que fazia correr um calafrio pela espinha dorsal das devotas, acostumadas às graçolas chocarreiras do defunto padre José. D. Cirila, mulher do capitão Fonseca, D. Dinildes, irmã do MapaMúndi, e a famosa D. Prudência, viúva do Joaquim Feliciano, não se fartavam de gabá-lo, admirando-lhe a barba bem escanhoada, o cabelo luzidio e penteado, a batina nova, a alva camisa engomada, os sapatos envernizados a capricho, o todo de petimetre de sotaina, que contrastava de modo frisante com as sobrecasacas domingueiras compridas e lustrosas, e com as largas calças brancas e os sapatos grossos, de couro cru, dos rapazes mais atirados da terra. E o mulherio todo as secundava nos elogios ao padreco. Até a Maria Miquelina, a negrada! tinha as suas simpatias pelo troca-tintas do vigário!

Tanto entusiasmo das mulheres teria certamente despertado o ciúme e o ódio dos homens, se, pelo seu procedimento - irrepreensível - não lhes tivesse padre Antônio captado a benevolência.

Nenhuma fraqueza lhe conheciam. Essa virtude inexpugnável causava pasmo ao Chico Fidêncio, desnorteava-o. Na sua opinião todos os padres eram mais ou menos como os cardeais do quadro de moldura dourada, sotoposta ao retrato do Ganganelli brasileiro: uns pândegos que bebiam champanhe abraçando irmãs de caridade. Entretanto com padre Antônio de Morais não se dava isso. A Luísa Madeirense perdera completamente os seus requebros, as suas provocações impudentes. Nem sequer lhe conseguira apanhar a freguesia do engomado, que fora dada à mulher do coletor, senhora quarentona e respeitável. D. Prudência debalde gastara dúzias de ovos em compoteiras de cocada amarela, com que o Macário sacristão apanhava azias desesperadas. S. Rev.ma lhas agradecia pelo portador, mas não a visitava. Todo trabalho entregue aos trabalhos do culto, parecia superior às fragilidades humanas. Andava atarefado, embebido na preocupação de regularizar o serviço da Igreja. Parecia querer ser um pároco modelo, solícito, atento e dedicado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →