Por Aluísio Azevedo (1880)
Mesmo durante o sono, o pobre diabo não vivia menos apoquentado: nessa segunda existência aturava coisas horríveis! Às vezes, numa especulação, perdia todos os bens e via-se a esmolar inteiramente pobre com a filha; outras vezes, dava para roubar e era preso como ladrão, condenado às galés e coberto de grilhões e pancadas; noutras ocasiões era Miguel que lhe aparecia formidável, saindo do mar, cheio de sangue, de limo e de cólera, a exprobá-lo como se espancasse um cão; e, coisa mais singular, Maffei, que acordado só se lembrava de Miguel com indiferença e desprezo, durante o sono temia-o covardemente, e deixava-se bater por ele, trêmulo e suplicante a seus pés, confessando as próprias culpas e reconhecendo a razão da parte do adversário. Um dia, Rosalina afigurou-se-lhe descomposta e sem pudor a injuriá-lo; outra vez, foi enforcado e seu carrasco era Cristo, que do alto do cadafalso, poético, louro, cheio de bondade, sorria piedosamente para ele; cometia, às vezes, sacrilégios e então acordava em gritos e prantos; enfim, Maffei durante o sono sofria horrivelmente dominado e combatido por um inimigo tremendo e mau, que o fustigava e repelia apesar de sair dele próprio.
Queremo-nos referir a esse eu, que durante o sono sai de nós e à parte constitui livremente a sua individualidade, pensando, praticando e resolvendo muito a seu bel-prazer, sem nos ouvir, sem nos consultar.
Vezes há que, durante o sonho, a despeito da nossa honra, roubamos, a despeito da nossa coragem, choramos aos pés de um inimigo, e a despeito do nosso amor, matamos o próprio pai ou irmão. E o — eu — independente e arbitrário dos sonhos faz-nos caprichosamente assassinos, ladrões e covardes, sem por isso ter nenhuma responsabilidade ou castigo.
Por outro lado, Rosalina transformava-se de dia para dia. Já não dava mais a mais pálida idéia da antiga camponesa, formosa e louçã, cheia de singela ternura, amada, mulher na idade, criança na inocência. Além da beleza, nada mais restava desse encantador mais divino que humano, mais anjo que mulher, desse ente que outrora com a sua garganta e o seu coração incensava de poesia e cantos matutinos a casinha branca.
Fizera-se elegante e não sem trabalho.
Teve de vencer certos obstáculos renitentes como a linguagem, a princípio, depois os movimentos, a voz, o olhar, o sorriso, tudo, toda essa beleza fora necessário desmoronar, e com que dificuldade! Para sobre as ruínas dela construirse outra beleza mais falsa, mais cara e menos rara — a elegância. A elegância começa sempre onde a natureza acaba, é uma viciosa continuação pelo homem.
As regras do canto, os passos da dança, a música, os preceitos de civilidade, a distração afetada, a gramática são coisas fáceis de aprender na meninice, porém obstáculos assustadores na idade em que já se não tem respeito aos mestres.
Todavia, Rosalina venceu todas as dificuldades.
Agora, não a incomodavam mais os vestidos justos, decotados e de enorme cauda, afizera-se aos sapatinhos à moda francesa, e o triunfo seria completo se, de vez em quando, sob os invólucros de seda e de rendas bordadas, não quisessem as desenvoltas carnes da outrora camponesa, proclamar sua independência, violando colchetes e estalando alguns pontos mais delicados do vestido.
Quanto não custou habituar aquelas belas mãos tão morenas e tão gordinhas às luvas apertadas!
Os dedos repeliam os anéis, o pescoço o colar, os braços a pulseira!
Como não suspiravam os delgados pés pelos sapatos frouxos com que dantes corriam?
E os cabelos? Os belos cabelos pretos de Rosalina, que dantes tão vaidosamente se ostentavam ao sol com seus reflexos de azul-ferrete? Coitados! Choravam agora escondidos e presos nos caprichosos penteados cheios de flores artificiais e pedrarias. Mas na sua raiva, tinham razão os cabelos, que tão bonitos como aqueles, compravam-se falsos penteados; porém tão belos cabelos como dantes mostrara Rosalina, só os pudera ostentar quem os possuísse naturais.
Em suma, Rosalina já não era uma rapariga, era uma senhora.
Conhecia todos os segredinhos das salas, já sabia ostentar um sorriso fingido as visitas de cerimônia, aturava maçadas sociais com aparente alegria, ajeitava a fisionomia a sorrir e ficar triste, segundo a ocasião, como impõe a sábia delicadeza, tinha amizades convencionais, ares de proteção e tinha também sempre engatilhado nos lábios um formidável — Oh! — para todas as pessoas que lhe mereciam respeito e acatamento.
Estava completa a obra.
O ouro derretera-se, dele levantaram-se as duas espirais de fumo — Civilização e Hipocrisia. Estas duas forças combinadas possuem um fluído capaz de transformar um anjo em mulher e uma mulher em demônio.
Rosalina respirou esse fluído e aprendeu a grande ciência da vida — sabia esquecer, sabia odiar e sabia mentir.
Quando a gente chega a conhecer tanta coisa não pode mais, nem precisa aprender o que é ser boa e honesta. Maffei cada vez estava pior.
A despeito da tua tão próspera fortuna, entristecia progressivamente como um velho urso de feira; vivia cada vez mais concentrado e sombrio, procurando o isolamento e a solidão.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.