Por Eça de Queirós (1888)
Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos OIivaes. No dia seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coração, Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficára combinado, na vespera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós, n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo e naturalmente. N'essa manhã elle mandára aos Olivaes dois criados para arejar as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá, como um devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era através d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do Damaso!
Até aos Olivaes, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não haveria paz, emquanto aquelle villão o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que elle não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...
Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisára a linda rua d'acacias que os pés d'ella pisariam na manhã seguinte: dera um longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alçado sobre um estrado, envolto em cortinados de brocatel côr d'ouro, com um esplendor sério d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sós n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão os seus amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldêa; e d'ahi a tres mezes estariam longe, na Italia, á beira d'um claro lago, entre as flôres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calão nos bilhares do Gremio! Quando chegou á rua de S. Francisco resolvera, se visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
Maria Eduarda fôra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em que lhe pedia para vir á noite faire un bout de causerie. Carlos desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na carteira como uma dôce reliquia; e sahia o portão, no momento em que o Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.
Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com effusão o seu Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrára do rico dia passado com Carlos e com o maestro em
Sitiaes!... Cintra uma belleza. Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão erudito e tão profundo, apesar da excellente musica da mulher, da Julinha (que para elle era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão de velhice...
- Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o teu ar aureolado.
O poeta encolheu os hombros.
- O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia que o diz...? Não; é S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade não faz ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo é um valle de lagrimas...
- Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle dissera isso mesmo em casa dos Cohens... E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço de Carlos:
- E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle, apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois do que houve!...
Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo da chegada, horas depois, soubera pela Gazeta Illustrada a vinda dos Cohens... E de resto se não podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades humanas tinham de se desfazer... Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeça baixa. Depois parou de novo, franzindo a testa:
- Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma péga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, lá em casa dos Cohens, elle veio com uns ditos, umas insinuações... Eu declarei-lhe logo:
«Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, é
como se fosse meu irmão.» E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que eu n'estas coisas de lealdade e de coração sou uma fera!
Carlos disse simplesmente:
- Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.