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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- O avô tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente feliz; como eu teria de ser desgraçado toda a minha vida se quizesse poupar ao avô essa contrariedade... O mundo é assim, Ega... E eu, n'esse ponto, não estou decidido a fazer sacrificios.

Ega esfregou lentamente as mãos, com os olhos no chão, repetindo a mesma palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas coisas vehementes: - É d'arromba!

III

Carlos, que almoçára cedo, estava para sahir no coupé, e já de chapéo - quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficára a fazer a barba.

Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella chegára a Lisboa, Ega ainda a não vira, e fallava d'ella raramente. Mas Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhãs o pobre Ega mostrava um desapontamento ao receber o

correio, que só lhe trazia algum jornal cintado, ou cartas de Celorico. Á noite percorria dois, tres theatros, já quasi vazios n'aquelle começo de verão; e ao recolher era outra desconsolação, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que não viera carta alguma

para s. exc.ª Decerto Ega não se resignava a perder Rachel, anciava por a encontrar; e roía-o o despeito de que ella, de qualquer modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração permanecia ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega apparecera á hora do jantar, transtornado: cruzára-se com o Cohen na rua do Ouro, e parecera-lhe que «esse canalha» lhe atirára de lado um olhar atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha» ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente, a uma esquina da Baixa.

Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a Revista dos Dois Mundos, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos acabava de a lêr - quando o Ega appareceu, de jaquetão, e em chinelas.

- Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.

- Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.

A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, Carlos faltára ao rendez-vous em casa da titi, sem lhe ter sequer escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e vinha agora intimal-o, «em nome de todos os sacrificios que

por elle fizera», a que apparecesse na rua de S. Marçal, domingo ao meio dia, para terem uma explicação definitiva antes d'ella partir para Cintra.

- Excellente occasião d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não vás, nem respondas... Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, não vos vêdes mais, e assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o Imperio Romano, e como o Rheno, por dispersão, insensivelmente...

- É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a calçar as luvas. Jesus! Que mulher massadora! - E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrificios!...» Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá de extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo céo, delira, e depois põe dolorosamente os olhos no chão, e chama a isso «sacrificios...» Só com um chicote!...

Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se nas condessas de Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia e dólo.

- E que é isso que tu me tinhas a dizer?

Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma cigarrette, abotoou devagar o jaquetão.

- Tu não tens visto o Damaso?

- Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que está amuado... Eu sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois dedos...

- Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte, fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te pulha, a ella peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou, que te metteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro, e tu és o mais rico, ella lhe passou o pé.. Vês d'ahi a infamiasinha. E isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe pôr cobro.

Carlos, muito pallido, disse simplesmente:

- Ha de se fazer justiça.

Desceu, indignado. Aquella torpe insinuação sobre «dinheiro» parecia-lhe poder ser castigada só com a morte. E um instante mesmo, com a mão no fecho da portinhola do coupé, pensou em correr a casa do Datoaso, tomar um desforço brutal.

(continua...)

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