Por Eça de Queirós (1888)
quinta: o avô e elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de verão, uma residencia graciosa, e tão confortavel...
- Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de silencio... Miss Sarah está á tua espera.
Depois, olhando para Carlos, muito séria:
- De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não tinha feito essa despeza...
- Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos criados, etc...
E acrescentou, rindo:
- Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...
Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.
- Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para que eu lá me installasse...
Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E isto inquietou-o - o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração.
- Não approva então o que fiz? Seja franca...
- Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto vem de si? Mas...
Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar:
- Não ha mas! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, se fosse possivel que a nossa affeição se
passasse fóra do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não pode ser!... Alguem tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisiveis.
Nós não somos deuses, felizmente...
Ella sorriu.
- Quantas palavras para converter uma convertida!
E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.
Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte Santa-Olavia e o Ramalhete.»
Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario», despeitado por essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo, outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos: mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado, já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela casa da titi...
Mas do outro segredo não sabia nada - e considerava-se ultrajado. Via rodas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»; via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente amado... E não sabia nada.
Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um pedaço do paraiso...
Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeara com as mãos nas algibeiras do robe-dechambre, encolheu os hombros, impaciente, farto d'aquelles louvores eternos a casinhola do Craft.
- Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo archeologico... Jesus! o que eu odeio bric-à-brac!
Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como reflectindo:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.