Por Eça de Queirós (1878)
Àquela hora Jorge acordava, e sentado numa cadeira, imóvel, com soluços cansados que ainda o sacudiam, pensava nela. Sebastião, no seu quarto, chorava baixo. Julião, no posto médico, estendido num sofá, lia a Revista dos Dois Mundos. Leopoldina dançava numa soirée da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as nuvens e agitava o gás dos candeeiros ia fazer ramalhar tristemente uma árvore sobre a sepultura de Luísa.
Daí a dois dias pela manhã Basílio, no Rossio, procurava, com o olhar em redor, um cupê decente. Mas o Pintéus, avistando-o de longe, lançou logo a parelha.
- Cá está o Pintéus, meu amo! - Parecia encantado de tornar a ver o senhor D. Basilinho, eapenas ele lhe disse:
- Lá acima, à Patriarcal, ó Pintéus!
- À casa da senhora? Pronto, meu amo. - E endireitando-se na almofada, bateu.
Quando a tipóia parou à porta de Jorge - o Paula saiu para a rua, a estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se logo na janela. E imóveis arregalavam os olhos.
Basílio tocara a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o charuto, tomou a puxar o cordão com força.
- As janelas estão trancadas, meu amo - disse o Pintéus.
Basílio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a casa tinha um aspecto mudo.
Basílio dirigiu-se ao Paula:
- Os senhores que ali moram, estão para fora?
- Já não moram - disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o bigode.
Basílio fixou-o, surpreendido daquela entonação fúnebre.
- Onde vivem agora então?
O Paula escarrou, e cravou em Basílio um olhar desolado:
- Vossa Senhoria é o parente?
Basílio disse sorrindo.
- Sou o parente, sou.
- Então não sabe?
- O quê, homem de Deus?
O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça:
- Pois sinto dizer-lho. A senhora morreu.
- Que senhora? - perguntou Basílio. E fez-se muito branco.
- A senhora! A senhora D. Luísa, a mulher do Sr. Carvalho, o Engenheiro... E o Sr. Jorge estáem casa do Sr. Sebastião. Ali ao fim da rua. Se Vossa Senhoria lá quer ir...
- Não! - fez Basílio com um gesto rápido da mão. Os beiços tremiam-lhe um pouco. - Mas quefoi?
- Uma febre! Rapou-a em dois dias!
Basílio dirigiu-se ao cupê devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéus bateu para a Baixa.
O Paula então aproximou-se do estanque:
- Não lhe fez muita mossa! Fidalgos! Canalha! - murmurou.
A estanqueira disse lamentosamente:
- Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dois padre-nossos por alma...
- E eu! - suspirou a carvoeira.
- Há de lhe isso servir de muito! - rosnou o Paula, afastando-se.
Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquelas mortes na rua traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! E todas as noites lia a Nação que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com rancor de artigos devotos que o exasperavam, o impeliam para o ateísmo; e o descontentamento das coisas públicas inclinava-o para a comuna. Como ele dizia, achava tudo uma porcaria.
Foi decerto sob este sentimento que, voltando-se à porta do estanque, disse às vizinhas com um ar lúgubre:
- Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é? - Fazia um gesto que abrangia o Universo.Fitou-as de um modo irado, e rosnou esta palavra suprema:
- Um monte de estrume!
Ao descer a Rua do Alecrim, Basílio viu o Visconde Reinaldo à porta do Hotel Street. Mandou parar o Pintéus, e saltando do cupê:
- Sabes?
- O quê?
- Minha prima morreu.
O Visconde Reinaldo murmurou polidamente:
- Coitada!...
E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava glorioso; um friozinho sutil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os galhos das árvores, os mastros das faluas, as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons sobressaíam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a cor do leite; e ao fundo as colinas faziam na pulverização da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.
E os dois, passeando devagar, iam falando de Luísa.
O Visconde Reinaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo! - Mas em resumo, sempre achara aquela ligação absurda...
Porque enfim fossem francos: que tinha ela? Não queria dizer mal da pobre senhora que estava naquele horror dos Prazeres, mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete... que diabo! Era um trambolho!
- Para um ou dois meses que eu estivesse em Lisboa... - resmungou Basílio com a cabeçabaixa.
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.