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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- "... Ali" - continuou o Conselheiro - "seu espírito, librando-se nas cândidas asas, entoa louvoresao Eterno! E não cessa de pedir ao Onipotente mercês e favores para derramar sobre a cabeça do dileto esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará nas regiões celestes, pátria das almas de tão subido quilate..." - E a voz do Conselheiro aflautava-se para indicar aquela ascensão paradisíaca.

- E ontem à noite esteve cá, o Sô Guedes? - insistiu o sujeito de jaquetão com os cotovelossobre a mesa, fumando como uma chaminé.

- Esteve tarde. Lá pelas duas horas.

O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo; por trás dos vidros da luneta escura fuzilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas de autor interrompido. Mas prosseguiu:

- "...E vós, ó almas sensíveis, vertei as lágrimas, mas vertendo-as, não percais de vista que ohomem deve curvar-se aos decretos da Providência..." E interrompendo-se:

- Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge! - Continuou: - "... da Providência. Deus contacom mais um anjo, e a sua alma brilha pura..."

- Esteve com a pequena, o Sô Guedes? - fez o sujeito, quebrando no mármore da mesa a cinzado charuto.

O Conselheiro suspendeu-se, pálido de raiva.

- Deve ser pessoa da mais baixa extração! - rosnou com ódio.

E o criado erguendo a vozinha fina detrás do balcão:

- Não, não; tem vindo agora com uma espanhola daí de cima da rua. Uma magrinha, com ocabelo eriçado, uma capa vermelha.

- A Lola! - acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se com voluptuosidade à recordação daLola.

O Conselheiro agora apressava-se:

- "... E de resto, o que é a vida? Uma rápida passagem sobre o orbe, e vão sonho de queacordamos no seio do Deus dos Exércitos, de que todos nos indignos vassalos." E com esta frase monárquica o Conselheiro terminou.

- Que lhe parece, com franqueza?

Julião sorveu o fundo da chávena, e colocando-a devagar no pires, lambendo os beiços:

- É para imprimir?

- Na Voz Popular com tarjeta preta.

Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se:

- Está muito bom. Muito bom, Conselheiro!

E Acácio procurando o troco para o moço:

- Creio que está digno dela, e de mim!

E saíram calados.

A noite estava muito escura; erguera-se um nordeste frio; gotas de chuva tinham caído. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou:

- Ai, esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade recolhe-se à Encarnação.

- Ah!

- Disse-mo agora. Eu fui justamente vê-la antes de ir ver um doente à Rua da Rosa. Estava comuma febrezita. Coisa de nada... A comoção, o susto! E deu-me parte: recolhe-se amanhã à Encarnação.

O Conselheiro disse:

- Sempre conheci naquela senhora idéias retrógradas. É o resultado das manobras jesuíticas,meu amigo! - E ajuntou com a melancolia do liberal descontente: - A reação levanta a cabeça!

Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo:

- Qual reação! É por sua causa, ingrato...

O Conselheiro estacou:

- Que quer o meu nobre amigo insinuar?

- Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma coisa grave...

- O quê? Acredite...

- O que eu também descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas travesseirinhas nacama, tendo só uma cabeça... Disse-mo ela! - E rindo muito, dizendo-lhe "adeus! adeus!" desceu rapidamente a Rua do Alecrim. O Conselheiro ficou imóvel, no largo, de braços cruzados, como petrificado. - Que infeliz senhora! Que funesta paixão! - murmurou enfim. E acariciou o bigode, com satisfação.

Como tinha de passar a limpo o necrológio apressou-se a entrar em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as responsabilidades de prosador distraíram-no das preocupações de homem; e até às onze horas a sua bela letra cursiva e burocrática desenrolouse nobremente sobre uma larga folha de papel inglês, no silêncio do seu Sanctum Sanctotum. Terminava quando a porta rangeu, e a Adelaide, com um xale forte pelos ombros, veio dizer, numa voz constipada:

- Então hoje não se faz nenê?

- Não tardo, minha Adelaide, não tardo!

E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era comovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada como um "ai"! Meditou, com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça entre os dedos muito abertos; Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a mão pela calva; aquele doce amoroso fez decerto saltar a idéia como uma faísca, porque tomou rapidamente a pena, e acrescentou:

- "Chorai! Chorai! Enquanto a mim, a dor sufoca-me!"

Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto num tom plangente:

- "Chorai, chorai; enquanto a mim, a dor sufoca-me!" - E passando o braço concupiscente pelacinta da Adelaide, exclamou:

(continua...)

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