Por Visconde de Taunay (1871)
Neste ínterim apareceu o próprio comandante. Não vendo voltar nenhum daqueles que á vanguarda mandara, ás pressas partira para constatar o que havia. O entusiástico acolhimento que neste momento lhe fizeram, e as aclamações dos soldados lhe causaram uma satisfação cuja expressão, malgrado a reserva habitual, a todos se patenteou.
Os auxiliares índios, Guaicurus e Terias, não foram os últimos a se apresentar para o saque. Tão pequena disposição para o combate haviam mostrado que, na nossa carreira, ao lhe tomarmos a frente, lhes bradáramos: Vamos! Avante! Valentes camaradas! Agora se lhes transmutara a indolência num ardor sem limites para o saque. Já se haviam disseminado pelas roças de mandioca e de cana, de lá trazendo, imediatamente, cargas sob as quais vergavam, sem, contudo, encurtar o passo.
Vislumbrava-se um resto de crepúsculo, ainda quando o grosso da coluna chegou. Foi este o momento do atropelo e da balbúrdia: tantos objetos se avistavam sem dono, misturados e fadados à destruição. Cada qual tomou o seu quinhão, sendo exatamente os menos beneficiados aqueles que à presa tinham mais direito, pois o haviam conquistado sob o fogo inimigo e guardado, como propriedade pública, até o momento da depredação geral. Era este saque, aliás, legitimo, e não se teria podido, sem manifesta injustiça, recusar tal prazer aos soldados, que o haviam comprado e adiantado por uma série de meses de privações e fome.
Das oito ou dez casas da Machorra, duas estavam reduzidas a cinzas pelo fogo que os próprios paraguaios lhes haviam posto. Foram as outras preservadas pelos nossos soldados. Alguns pedaços do madeiramento, alguns mourões abrasados serviam para cozinhar as batatas, a mandioca e as aves do inimigo. A Machorra, denominada fazenda do marechal Lopez, não passava realmente de terra usurpada, cultivada por ordem sua, além da fronteira.
O trabalho dos invasores, frutuoso como fora, vinha acrescer ao banquete a satisfação de um sentimento de reivindicação nacional. Autorizou-o o Coronel com um ar prazenteiro que jamais até então lhe percebêramos.
CAPÍTULO VIII
Ocupação de Bela Vista. Devastações dos paraguaios em torno da coluna. Tentativa de negociações. Seu malogro. Tornam-se os viveres escassos. Marcha sobre Laguna.
É dia seguinte, 21 de abril, ás 8 da manhã, deram os clarins do quartelgeneral o toque de marcha: nada menos significava do que transpormos a fronteira, entrar em território paraguaio e atacar o forte de Bela Vista, que, deste lado, é a chave de toda aquela região. Não havia quem não compreendesse o alcance da operação, redobrando por este motivo a animação geral. Cada qual envergara o mais luzido uniforme; e como ás nossas antigas bandeiras não prestigiasse ainda feito notável algum, foram substituídas por outras, cujas cores vivas se destacavam no céu formoso das campinas paraguaias.
Deixando a Machorra, adotara-se a ordem compacta. Dos dois lados da coluna, e para lhe facilitar o movimento, os atiradores, que a flanqueavam, cortavam a macega; pois mudara a natureza do terreno. Não mais tínhamos a grama curta e fresca dos prados que acabávamos de atravessar. Estava o solo coberto desta perigosa gramínea que atinge a altura de um homem, e a que chamam macega, e cujas hastes duras e arestas cortantes tornam, em muitos lugares do Paraguai, a marcha tão penosa. Transpusemos o Apa em frente a Bela Vista; o 20.° de infantaria de Goiás formava a vanguarda, sob o comando do capitão Ferreira de Paiva. Avançando á frente dos batedores, a quem comandava, jovem e valente oficial, de nome Miró, fadado á morte próxima, víamos o velho Lopes, apressurado, montando belo cavalo bafo um daqueles animais que o filho e os companheiros deste haviam tomado aos paraguaios.
Estava no auge da alegria, o olhar como o de um rapineiro, a fitar Bela Vista, que começávamos a avistar. De repente, no momento em que acabávamos de chegar ao seu lado, percebemos que a fisionomia se lhe anuviara: "A perdiz, dissenos, voa do ninho e nada nos quer deixar, nem os ovos". Mostrava ao mesmo tempo tênue fumo que subia aos ares. "São as casas de Bela Vista que incendiaram".
Foi a noticia levada ao Coronel que, avisado também por um sinal do alferes Porfirio, do batalhão da frente, fez acelerar a marcha. Começamos a correr, precipitando-se a linha dos atiradores do 20.° para o rio; mas a sua frente já se antecipara pequeno grupo de que fazia parte o nosso guia. Com grande espanto nosso não pareciam os inimigos pretender disputar-nos o passo; retiravam-se do Apa como já se haviam afastado da Machorra, indo estacar a uma distância bastante grande, imóveis sobre os cavalos.
Cabia-nos, pois, o feliz ensejo de ser os primeiros a atravessar a fronteira, pisar á esquerda do Apa e sentir sob os pés o solo paraguaio.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.