Por Franklin Távora (1879)
Então Maurícia deu alguns passos para D. Carolina.
— Ah! minha boa amiga. A minha tranqüilidade, o meu sossego, acabaram. Foram-se os dia felizes. Ai de mim!
Assim falando, Maurícia lançou-se nos braços da senhora do engenho, e umedeceu-lhe o seio com lágrimas.
CAPÍTULO VII
Não se pode descrever o assombro de Maurícia ao dar com as vistas em Bezerra na sala do sítio. A medonha visão, que lhe aparecera no boqueirão e se desvanecera quase inteiramente no trajeto para a casa de Martins, surgia agora novamente, envenenando-lhe o espírito e repassando-lhe de fel a malfadada existência. Terríveis ameaças vinham com esta visão merencória e truculenta. O passado de que Maurícia desenterrara a página, que lera a Ângelo, ressurgiu a seus olhos com todos os episódios, dando-lhe a feição de uma tragédia.
— Eu logo vi que não havia de enganar-me - disse ela tristemente.
E acrescentou no mesmo instante:
— Que será de mim, se esse homem me jungir outra vez ao carro de sua tirania?
E porque a esse tempo tinha passado a primeira impressão do assombro, Maurícia volveu imediatamente sobre seus passos. Ângelo, que tinha ainda preso ao seu braço o dela, deixou-se arrastar irresistivelmente. O acaso os unira, e a fatalidade parecia não querer soltá-los. O abismo, em que um esteve perto de cair, ameaçou o outro. O pensamento de escapar a esse abismo era comum a ambos.
— Fujamos daqui, Sr. Dr. Ângelo. Deus me livre de ser vista por meu carrasco. Parece-me que para afugentar-se espavorida a minha liberdade, bastaria que ele me cobrisse com seu olhar sinistro.
Foi profundamente abalada que Maurícia disse estas palavras, arrancos de seu ânimo quase exausto. Sentia-se presa da febre e do frio ao mesmo tempo. Em sua alma, havia fogo e gelo - o fogo do desespero; o gelo do terror.
Deram a andar em demanda do portão, protegidos pelas sombras das árvores a que as da noite aumentavam o vulto e a densidão.
— Há talvez excesso nos seus receios, D. Maurícia - disse Ângelo, depois de um momento de silêncio. Quem a poderá obrigar a viver com este homem? A senhora não pertence ao acaso! Não é dona das suas ações?
— Pertenço-me e sou senhora das minhas ações - respondeu ela. Mas a verdade é que ele me aterra como se fora um duende. Não está em mim deixar de temê-lo. Contra esse homem só fui forte em um momento da vida - o da minha separação.
— Recobre os ânimos — prosseguiu o bacharel. Voltar à companhia dele, ou ficar livre como até hoje, são coisas que dependem exclusivamente da sua vontade. Não tem vivido longe dele durante três anos? Por que o teme? Demais, a senhora não está só. Ao seu lado pulsa um coração virgem e amigo, onde predominam dois sentimentos intensos — o amor e a dedicação. Exija qualquer prova destes sentimentos que ela não será recusada, nem retardada.
Ângelo tinha na voz estranhas vibrações. Seu corpo estremecia nervosamente. Fulgiam-lhe no espírito clarões sinistros. Era a terceira vez que o seu amor se revelava. Maurícia, que se considerava de fato ameaçada no que tinha mais caro de seu, não pode fazer-se desentendida como das outras vezes. Os perigos que se levantaram contra a sua tranqüilidade eram maiores do que os que ameaçavam a sua honra.
— Eu preciso realmente de proteção, Sr. Dr. Ângelo. Dentre os parentes que tenho só confio em Eugênia e no marido; mas a moral severa em que foram educados talvez não lhes consinta fazerem comigo uma barreira contra as pretensões do meu perseguidor. Não lhe farão a menor resistência, quando ele declarar que pretende restabelecer a moralidade no seu lar, não obstante saberem que ele foi o único perturbador da nossa harmonia, a causa da nossa separação.
— Desculpe-me D. Maurícia. Isto que prevê parece-me impossível de realizarse. Não somente uma, mas muitas vezes, tenho ouvido Martins e D. Eugênia terem para o Bezerra acerbas censuras.
— É verdade, mas logo que se trate de reconciliar-nos, hão de mudar de parecer, e serão os primeiros a promover o nosso congraçamento. Não é isto o que sucede a todas as famílias em casos análogos?
O desânimo entrara no espírito da infeliz senhora.
— Considero-me desamparada. Por que motivo hei de ocultar a minha fraqueza? Se meu marido pretender chamar-me para a sua companhia, terei necessidade de bater à porta de alguém para pedir que me livre das garras do monstro.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.