Por Franklin Távora (1878)
Lourenço era forte, segundo sabemos. Mais de uma vez atirou para longe um cão, para uma banda o moleque, para outra a negra. Mas os que ele assim afastava de ao pé de si, tornavam logo mais exacerbados ao ponto donde tinham sido atirados, e prolongavam o conflito com fúria e esforço novos. Além disso, Lourenço achava-se desarmado, o que diminuía consideravelmente a sua grande força física, incapaz para resistir ás dos inimigos, que eram gigantes em comparação da sua, visto serem eles numerosos e terem, além das forças, instrumentos que contundiam, feriam e até despedaçavam. Com pouco mais sentiu-se enfraquecer. O sangue escorria-lhe de diferentes pontos das pernas; os cães, ensinados desde pequenos a dilacerar os timbus, as raposas e os maracajás – hospedes importunos do sitio, tinham-lhe rasgado importantes vasos, e cortado com seus poderosos colmilho as carnes moídas das cacetadas. Lourenço estava quase desfalecido, e só lhe faltava cair para ser de todo vitima e não se poder levantar mais.
Achava-se neste extremo apuro, e seus pés já iam resvelando na areia poida do terreiro da casa, aonde as evoluções desordenadas do conflito tinham arrastado os que nele eram parte, quando, repentinamente, vencendo o burburinho, voz forte e vibrante fez ouvir estas palavras:
- Negro! Negro! Moçambique! Tem mão. Queres matar meu filho?
VI
Os negros sobrestiveram espantados.
- É seu filho, seu Francisco? Perguntou Moçambique ao recém-chegado, que não era outrem que Francisco mesmo.
- É meu filho, negro do diabo.
- Então, perdoa, seu moço. Ninguém sabia. Perdoa a Moçambique.
Francisco, sentindo falta de Lourenço, e atraído pelos primeiros latidos da canzoada, viera dar consigo no lugar onde a sua benéfica intervenção não podia chegar mais oportunamente.
Lourenço estava muito maltratado. Chegando á casa, caiu de cama para não se levantar senão depois de um mês. Nos primeiros dias não deram nada pela vida dele.
Este acontecimento, lastimável por um lado, foi pelo outro providencial, e, para assim escrevermos, acentuou a obra de regeneração em que se empenharam aquelas duas almas que porfiavam para pôr no bom caminho o menino perdido e infeliz.
Preso pelas mordeduras e contusões á cama, Lourenço a quem nunca em Pasmado acontecera desastre que com este se parecesse, teve ocasião de fazer irresistível e fatalmente o juízo do seu procedimento desde o dia em que caiu na laxidão das ruas, tabernas e ranchos. O senso intimo, até aquele momento obscurecido pela inexperiência e verdor dos anos, começou a reagir contra as camadas que o impediam de lhe mostrar as trilhas do dever e da sã doutrina.
Marcelina, hábil e natural educadora, aproveitara-se do ensejo para aconselhar o menino, tomando lições do acontecimento, a não se encaminhar senão para o trabalho e o bem.
- Que ias tu fazer, Lourenço, quando os cachorros e os negros caíram sobre ti? Ias perder-te. Deixavas aqui pai e mãe, que olham por ti com amor e doçura; metias-te por esse mato a dentro, com risco de morreres de fome, de doença ou de mordedura de cobra.
- O que eu queria era ganhar o caminho que vai dar em minha terra – respondeu ele. O negro e a negra não me deixaram passar; mas eles hão de pagar-me este desaforo.
- E que ias ver em tua terra? Que foi que ela te deu? maus exemplos e maus costumes. Que ias tu achar lá? A miséria, o sujo e o desprezo. No fim de contas serias recrutado e acabarias sabe Deus onde, com a farda nas costas. - Cuida que eu tenho medo de ser soldado? Eu sou forte.
- Isso sei eu.
- E gosto de brigar e combater. Havia de vir uma guerra que eu mostraria para quanto sou.
Assim que assentasses praça te arrependias logo da asneira feita. Pensas que o soldado tem licença para andar a toda hora por onde quer, como fazias tu antes de Francisco te trazer para o Cajueiro? Estás enganado. O soldado não tem a menor liberdade; é pior do que negro de engenho; não pode dar um passo sem ordem do seu superior. És uma criança, Lourenço; não sabes ainda o que é o mundo. Acomoda-te com os bons e busca ser um deles. Ajuda-nos a trabalhar e a viver em nosso sossego, que o trabalho por pouco que dê á gente, é sempre proveitoso e traz alegria e paz.
Quando se levantou da cama, Lourenço dava mostras de melhorado do gênio trêfego que fora causa da sua longa doença. Um grande fruto, quando outros se não pudessem apontar, tinha produzido o recolhimento forçado do menino: saíra-lhe de todo do entendimento a idéia de volver ao povoado donde viera. Aos olhos de Marcelina, que aprendeu sem que ninguém lhe ensinasse, a ler nas palavras e na fisionomia de quem com ela tratava, os íntimos pensamentos e intuitos, nenhum indicio de melhora podia parecer mais favorável do que este. A fugida de Lourenço a Pasmado era o que ela mais receava, e para tolher que semelhante desgraça viesse a suceder, ela liberalizava agrados e carinhos ao menino, e com espertos cuidados vigiava sobre ele a toda hora. Nada lhe recusava, mas também não o
deixava pisar em ramo verde.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.