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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Quanto a Umbelina, essa saltou logo com sofreguidão ao colo do rapaz, apertou-o nos braços, beijou-o na testa dirigindo-lhe os mais bizarros cumprimentos.

— Santo Deus como está grande e bem parecido!... está um homem feito... e já está com o caráter de padre santo!...

Enquanto Umbelina se desabafava nestes e outros cumprimentos, Eugênio confuso e embaraçado olhava de esguelha para Margarida não ousando fitá-la, pasmo com a mudança que quatro anos puderam operar no desenvolvimento da menina, e cuidava vir ainda encontrar pouco mais ou menos a mesma inocente e linda criança que deixara pequena como ele. Eugênio, com ser mais velho dois anos, não havia feito mudança notável, e ainda se considerava menino. Não sabia que o desenvolvimento nas mulheres se opera com muito maior rapidez, e ficou assombrado quando em vez de uma menina, que esperava pôr sobre os joelhos, viu apresentar-se diante dos seus olhos uma linda mocetona, alta, garbosa, bem feita e em toda a plenitude de seu desenvolvimento.

De fato, a interessante menina em quatro anos tinha-se transformado na mais encantadora moça.

A tez era de um moreno delicado e polido, como resvalando uns reflexos de matiz de ouro. Os olhos grandes e escuros tinham essa luz suave e aveludada, que não se irradia, mas parece querer recolher dentro da alma todos os seus fulgores à sombra das negras e compridas pestanas, como tímidas rolas, que se encolhem escondendo a cabeça debaixo da asa acetinada; as sobrancelhas pretas e compactas davam ainda mais realce ao mavioso da luz que os inundava, como lâmpadas misteriosas de um santuário. Os cabelos, uma porção dos quais trazia soltos por trás da cabeça, lhe rolavam negros e luzidios sobre os ombros como as catadupas enoveladas de uma cachoeira. Ao mais leve sorriso, que lhe entreabria os lábios, cavavam-se-lhe nas duas mimosas faces com uma graça indefinível essas feiticeiras covinhas, que o vulgo chama com tanta propriedade — grutas de Vênus. A boca, onde o lábio inferior cheio e voluptuoso dobrava-se graciosamente sobre um queixo redondo e divinamente esculturado, a boca era vermelha, fresca e úmida como uma rosa orvalhada. O colo, os ombros, os braços, eram de uma morbidez e lavor admiráveis.

Sua fala era uma vibração de amor, que alvoroçava os corações, o olhar como luz de lâmpada encantada, que fascina e desvaira; o sorriso era um lampejo de volúpia, que fazia sonhar com as delícias do Éden.

Era, enfim, o tipo o mais esmerado da beleza sensual, mas habitado por uma alma virgem, cândida e sensível. Era uma estátua de Vênus animada por um espírito angélico.

Ainda que Eugênio não conhecesse e amasse Margarida desde a infância, ainda que a visse então pela primeira vez, era impossível, que toda a virtude e austeridade daquele cenobita em botão não se prostrasse vencido diante daquela deslumbrante visão.

Margarida estava vestida de cor-de-rosa com muita graça e simplicidade; tinha por único enfeite na cabeça um simples botão de rosa. Eugênio esteve por muito tempo mudo e entregue a um indizível acanhamento diante da companheira de sua infância, como se achasse em presença de uma alta e poderosa princesa. Foi a tia Umbelina quem primeiro rompeu o silêncio:

— Está com efeito um mocetão o Sr. Eugeninho!... há de dar um bonito padre.

O estudante olhou para Margarida como quem dizia — nunca! corou e abaixou os olhos sorrindo tristemente, como o faria a mais pudica donzela. Aquele cumprimento de bonito padre, que lhe era lançado em face ali, em presença de Margarida, causou-lhe uma estranha e desagradável impressão.

— É isso mesmo — continuou Umbelina em ar de gracejo —, já não conhece os seus amigos velhos ou daqui a pouco é senhor padre, senhor vigário, e nem há de querer mais olhar para a gente, não é assim, senhor Eugeninho?

— Não diga isso nem brincando, tia Umbelina — replicou Eugênio cada vez mais enfiado. — Deus me livre de fazer pouco caso de ninguém, quanto mais da gente de casa de quem eu tinha tanta saudade. O que me admira é ver a dona Margarida como cresceu tanto e ficou moça tão depressa.

— Toma lá, menina! — exclamou Umbelina dando uma risada; — está-te dando de dona!... que dizia eu?... para ele já somos como gente estranha. Já se esqueceu que ainda o outro dia brincavam juntos?... deixemo-nos de donas aqui, senhor Eugênio; esta menina é para Vm. o mesmo que uma irmãzinha. Quero vê-lo tal qual era dantes.

— Mas ela... já está tão... já está moça... — ia gaguejando Eugênio no maior enleio — e eu achava que...

— Tem razão, meu filho — atalhou a mãe acudindo ao embaraço do filho; — nem sempre a gente é criança; Margarida já está ficando uma senhora, e você não pode tratar "a ela" agora, como no tempo em que brincavam juntos o "escondeesconde".

(continua...)

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