Por Bernardo Guimarães (1872)
– Com mil diabos! exclamava Roberto trincando os dentes e arrancando os cabelos. – Lá estão a conversar sozinhos! o que estarão cochichando aquelas duas almas! eu dera a vida por ouvir tudo!... aquela prima jurou de me estraçalhar o coração. Doidinha!... às barbas de seu pai, e à minha vista, estar a cochichar com um estranho!... e continuam!... não sei onde estou que... e como se estão derretendo um com outro! oh! não! isto é demais... não consinto.
Entretanto aquele silêncio e serenidade, que ainda há pouco reinava em torno daquela pacífica habitação, tinha-se convertido em tumulto e algazarra infernal. O gado que chegava do campo e entrava de tropel pela porteira do curral, atordoava o ar com seus mugidos; não menos atordoadora era a gritaria dos campeiros, que o tocavam. Os negros que vinham do trabalho e se recolhiam às senzalas ou conversando ou cantando em voz baixa ao toque da marimba faziam um zumbido semelhante ao das abelhas, quando se recolhem ao colmeal. Não menos gritava o patrão lá de sua varanda interrompendo a espaços sua leitura para ralhar e dar ordens a seus campeiros e escravos. Enfim o chiado dos carros, que se avizinhavam carregados de cana para o engenho, acabava de azoinar todos os ouvidos com aquele zunido agudo, incessante, desesperador, que nos martiriza e quase arromba os tímpanos, som de uma intensidade e aspereza tal, que não há no dicionário palavra assaz expressiva para significá-lo.
Enquanto se dava toda aquela barafunda e vozeria, Roberto desceu aos pinotes para o curral boleando em torno da cabeça um comprido laço. Aquela tropelada tinha-lhe sugerido um expediente, que de pronto tratou de pôr em execução para atrapalhar a conversa dos dois jovens.
– Olá, prima! – bradou ele de longe para Paulina com voz atordoadora e sempre boleando o seu laço. – Olhe cá; quer ver como se laça e se dá um tombo de rachar em qualquer destes boizinhos? – Matias! – gritou ele para um dos campeiros, toca para cá aquele boi laranjo, espanta-o bem, de modo que venha bem disparado.
O rapaz espantou o boi, que correndo à disparada passou a algumas braças de distância por diante de Roberto; este atirou-lhe o laço, que caiulhe direito sobre os chifres. O moço segurou a extremidade do laço sobre o quadril, estacou, fez finca-pé, e de um safanão fez tombar de costas o mísero animal.
Conhece, boizinho! – bradou Roberto, e correndo para o boi sem darlhe tempo de levantar-se agarrou-lhe nas pontas, cravou-as no chão, e sentou-se sobre o boi, que ficou subjugado e sem poder mexer-se do lugar.
– Está vendo, prima, como se escorna um boi!... Agora vou pealar aquele garrote pintado, que ali está me fazendo fosquinhas. Quer que peale pelas mãos ou pelos pés? hem, prima?... toca esse boizinho, Matias.
O escravo espantou o novilho, que saiu aos corcovos. Roberto boleou o laço e apanhou-o pelas patas dianteiras, dando ao pobre animal um horrível tombo, que o fez revirar pelos ares de cambotas, e estourar no meio do curral de um modo lastimoso.
– Olá, senhor Roberto!... gritou da varanda o velho com voz áspera;
– Que brincadeiras são essas! Vosmecê dessa maneira vai a me dar cabo de quanta rês tenho no curral.
– Não tenha susto, meu tio; queria somente desabusar este novilho; este diabo está muito arisco; precisa levar todos os dias uma boa esfrega; senão tão cedo não serve para o carro.
– Não duvido, meu sobrinho; mas não é quebrando-lhe as costelas nesse chão duro, que virá a servir. Por favor modere essas esfregas, que são mais de matar, que de amansar.
– Não tenha cuidado, meu tio; estou muito acostumado a lidar com este bicho... Viu, minha prima, como se joga um pealo bem jogado?
O amalucado rapaz vingava-se assim nos pobres bois da raiva, com que estava contra Paulina e Eduardo, e enquanto assim desabafava procurando atrapalhá-los escutemos a curta conversação, que tiveram à sombra da gameleira, conversação a cada passo interrompida pelos gritos e algazarras do atabalhoado primo. Foi Paulina quem a encetou pelo seguinte modo:
– Como lhe vi aqui tão sozinho e tão triste, sr. Eduardo, tomei a liberdade de vir trazer-lhe estas laranjas para se refrescar e também se distrair com elas. Bem vejo, que é fraca distração, mas ao menos enquanto as descasca....
Ora, d. Paulina!... um presente de suas mãos seria bastante para acabar com toda a minha tristeza, no caso que eu tivesse tristeza no coração. Acha então a senhora, que ando triste?
– Muito, e cada vez vai-se tornando mais triste, e não é de hoje que reparo isso.
– Deveras, minha senhora?... pode ser, e nesse caso será já o efeito da saudade, que hei de levar deste belo sítio, e das pessoas, que nele moram.
Este princípio não estava mau, e Paulina a estas últimas palavras do mancebo sentiu ameigar-se-lhe o coração ao sopro de uma aura de esperança.
– Não parece, – replicou Paulina; o que pelo contrário me parece certo, é que as saudades que tem da sua terra, não lhe dão muito tempo para pensar em nós.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.