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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O patronato do outro tempo aparecia aos olhos do povo nas janelas do palácio, trajando brilhante fardão. O patronato da atualidade vive embrulhado em um grande capote e agachado embaixo da mesa de cada um dos ministros.

Em uma palavra, o patronato do outro tempo era franco e patentemente ousado, e o patronato da atualidade é manhoso e só tenebrosamente ousado.

Notai, porém, que a franqueza do patronato velho não era uma virtude, era, pelo contrário, um defeito profundo do sistema. Essa franqueza era a ostentação do arbítrio.

Dir-me-eis que o patronato novo, por isso mesmo que é manhoso, sofístico e disfarçado, torna-se muito perigoso. Convenho. Ao menos, porém, quando o percebemos e descobrimos, temos o direito de pôr-lhe a calva à mostra e de maçá-lo sem dó nem piedade.

Concordo ainda em que, não poucas vezes, no nosso tempo ousa o patronato erguer-se com a audácia antiga, porque a vaidade e a filáucia de alguns figurões os faz crer que eles nasceram predestinados para serem tutores e curadores obrigados do povo, e que, portanto, devem todos curvar-se ao império de sua vontade e ainda em cima render graças a Deus pelo favor e benefício imenso que da sua irresistível influência resulta para o país. Mas, em que lhes pese, cada cidadão tem na constituição do Império um baluarte inexpugnável contra as intoleráveis pretensões desses reizinhos improvisados, e no direito de censurar uma arma sempre poderosa e temida para atacar os abusos e os patronatos dos tais senhores.

Concluo: sempre houve, ainda há, e muito, e nunca deixará de haver mais ou menos patronato. Dantes, porém, as vítimas sofriam as injustiças dos potentados sem queixar-se nem murmurar, e agora quem sofre pode levantar a voz, fazer-se ouvir, achar um eco na opinião pública, e muitas vezes consegue ver triunfante o seu direito, e fugirem desapontados e pagãos os altivos afilhados dos mais orgulhosos padrinhos.

Última conseqüência: viva a constituição do Império!

Está concluída a introdução ou terminado o prólogo da anedota que agora passo a referir.

Na época em que viveu o desembargador Petra, a Câmara Municipal marcava o maximum dos preços dos gêneros de primeira necessidade e fiscalizava o mercado, impedindo que se vendessem ao povo gêneros alimentícios deteriorados.

Aquele desembargador presidia a Câmara Municipal como juiz de fora, que era, e portanto, a seu cargo principalmente estava o cuidado de garantir ao povo gêneros alimentícios em bom estado e por um preço não exagerado.

Nesse ponto, era o desembargador Petra muito severo, e um certo mercador de farinha de mandioca, fornecedor das casas de alguns fidalgos mais influentes, tinha sido por ele mais de uma vez condenado, em conseqüência de vender farinha avariada ao povo, e ainda em cima, de ter urna balança infiel.

O negociante, cansado de sofrer a retidão do juiz, apelou para os milagres do patronato.

Um dia em que o desembargador Petra dava audiência, aproximou-se dele o negociante de farinha e apresentou-lhe um aviso ou portaria do ministro em que era ordenado ao juiz de fora que não incomodasse mais o fornecedor dos fidalgos.

O desembargador leu primeiro para si e depois em alta voz a ordem do governo, e em seguida beijou respeitosamente o aviso ou portaria e disse:

– Pode ir descansado e furtar à sua vontade: o governo o autoriza a roubar ao povo. Eu hei de cumprir as ordens do governo, e V. Mce. fará muito bem si furtar dez vezes mais do que furtava até agora.

Realmente, em um país governado pelo sistema absoluto, não se podia ferir de um modo mais positivo e forte do que o fez o desembargador Petra um escandaloso patronato dos grandes.

Também é verdade que o severo magistrado contava na corte uma numerosa falange de furiosos inimigos. Mas tinha por si a confiança do príncipe real, e zombou sempre de todos eles.

Creio que por hoje basta de passeio. Mas, desta vez, fecho o segundo parêntesis que abri, e prometo que dora avante divagarei muito menos.

III

O antigo convento dos carmelitas exige agora também um breve estudo. Fazendo parte do palácio desde 1808, não pode ficar esquecido sem ofensa à exatidão histórica.

Um simples passadiço converteu aquele edifício de casa de frades em paço real; mudando-lhe, porém, a natureza, não lhe pode mudar o parecer, e o antigo convento conservou e conserva ainda a primitiva feição monástica que o apresenta sempre arquitetonicamente desarmonizado com o palácio a que se ligou.

É um aditivo que não tem relação alguma com o corpo a que foi adicionado: é um adjetivo que não concorda com o seu substantivo nem em gênero, nem em caso, nem em número: discordância completa no que diz respeito à arquitetura.

(continua...)

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