Por José de Alencar (1853)
Esté a colhimento lndifferente confrangeu o coração de Ayres, que ainda mais se affligia notando a pallidez da moça, a qual parecia estar-se definhando como a rosa, a quem a larva devora o seio.
XV
O NOIVO
Em um mez, que tanto fazia desde a volta de Ayres, não lhe dissera Maria da Gloria uma palavra siquer ácerca da longa ausencia.
— Tão alheio lhe sou, que nem se apercebeu do anno que passei longe d'ella.
De seu lado tambem não tocava o cavalheiro n'esse incidente de sua vida, que desejava esquecer. Quando Duarte de Moraes insistia com elle para saber a razão porque se partira tão inesperadamente, e por tanto tempo sem dar avizo aos amigos, o corsario esquivava-se á explicação e apenas respondia:
— Tive noticia do inimigo e fui-me sem detença. Deus Nosso Senhor ainda permittiu que tornasse ao cabo de um anno, e eu lhe rendo graças.
Convenceram-se quantos o ouviam falar assim, que havia um mysterio na ausencia do cavalheiro; e o povo miudo cada vez mais persistia na crença de que a escuna estivera encantada todo aquelle tempo.
O primeiro cuidado de Ayres, logo depois de sua chegada, foi ir com toda a sua maruja levar ao mosteiro de S. Bento o preço de tudo quanto haviam capturado, para ser applicado á festa e ornato da capella de Nossa Senhora da Gloria.
Acabado assim de cumprir o seu voto e a penitencia a que se tinha sujeitado, não pensou Ayres sinão em viver como d'antes para Maria da Gloria, bebendo a graça de seu formoso semblante.
Mas não tornaram nunca mais os dias abençoados do intimo contentamento em que tinham vivido outrora. Maria da Gloria mostrava a mesma indifferença pelo que passava em torno d'ella; pa recia uma creatura já despedida d'este valle de lagrimas, e absorta na visão do outro mundo.
Dizia Ursula que essa abstracção de Maria da Gloria lhe ficára da doença, e só havia de passar em casando; pois não ha para curar as meninas solteiras como os banhos da igreja.
Notara porém Ayres que especialmente com elle tornava-se a menina mais arredia e concentrada; e vendo a differença de seu modo para com Antonio de Caminha, de todo convenceu-se que a menina gostava do primo, e estava-se finando pelo receio de que elle Ayres puzesse obstaculo a seu mutuo affecto.
Dias depois que essa idea lhe entrou no espirito, achando-se em casa de Duarte de Moraes, succedeu que Maria da Gloria de repente debulhou-se em pranto, e eram tantas as lagrimas que lhe corriam pelas faces como fios de aljofares.
Ursula que a viu n'esse estado, exclamou:
— Que tens tu, menina, para chorar assim ?
— Um pezo do coração!... Chorando passa.
E a menina sahiu a soluçar.
— Tudo isso é espasmo! observou Ursula. Si não a casarem quanto antes, vai a mais, a mais, e talvez quando lhe quizerem acudir, não tenha cura.
— Já que se offerece a occasião, carecemos tratar d'este particular, Ayres, em que desde muitos dias atraz ando para tocar-vos.
Perturbou-se Ayre's a ponto que faltou-lhe a voz para retorquir; foi a custo e com esforço que, vencida a primeira commoção,pouderesponder.
— Estou ao vosso dispôr, Duarte.
— É tempo de saberdes que Antonio de Caminha quer bem a Maria da Gloria e já nos confessou o desejo que tem de a receber por esposa. Tambem a pediu o Fajardo, sabeis, aquelle vosso camarada; mas essa é muito velho para ella;podia ser seu pai.
— Tem a minha idade, com differença de mezes, observou Ayres com uma expressão resignada.
— Assentei não decidir «obre isso em vossa ausencia, pois embora vos considerassemos perdido, não tinhamos essa terteza; e agora que nos fostes felizmente restituido, a vós compete decidir da sorte d'aquella que tudo vos deve.
— E Maria da Gloria?... perguntou Ayres ja senhor de si. Retribue ella o affecto de Antonio de Caminha, e o quer por marido?
— Sou capaz de jurar, acudiu Ursula.
— Não consenti que se lhe falasse n'isto, sem primeiro sabermos si era de vosso agrado essa união. Mas ella ahi está; podemos interrogal-a si o quereis-, e será o melhor.
— Avisaes bem Duarte.
— Ide, Ursula, e trazei-nos Maria da Gloria; mas não careceis de prevenil-a.
Com pouco voltou a mulher de Duarte acompanhada pela menina.
— Maria da Gloria, disse Duarte, vosso primo Antonio de Caminha pediu vossa mão, e nós desejamos saber si é de vosso agrado casar-vos com elle.
— Já não sou d'este mundo, para casar-me n'elle, respondeu a menina.
— Deixai-vos de ideas tristes. Haveis de recobrar a saude: e com o casamento voltará a alegria que perdestes!
— Essa mais nunca!
— Emfim decidi d'uma vez si quereis Antonio de Caminha por marido, pois melhor não creio que possais achar.
— É do agrado de todos, este casamento? perguntou Maria da
Gloria fitando os olhos em Ayres de Lucena.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.