Por José de Alencar (1878)
Um criado velho, o Abreu, entrara no aposento. Arranjou os objetos que estavam sobre a mesa; colocou ali uma salva com serviço de chá para duas pessoas; e reparando nas rótulas abertas pelo vento, fechou-as com o trinco.
Amália não viu mais nada senão a luz coada entre as lâminas das venezianas.
Não se imagina a indignação que sublevou sua alma, quando refletiu naquele acontecimento.
Se um homem amado por ela, depois de ter-lhe jurado fidelidade, a enganasse vilmente, não o puniria com o desprezo que tinha por Hermano nesse momento.
Era uma traição torpe e infame a que havia cometido esse marido. Não lhe bastara esquecer a mulher, faltar ao seu juramento. Fez mais: insultou a sua memória, cobrindo com o véu de uma constância exemplar outro amor, que ele próprio se envergonhava de mostrar ao mundo.
Amália identificava-se com a esposa traída; supunha Julieta rediviva em si e erguendo-se implacável para castigar o pérfido marido.
Mas como? Morrendo outra vez; porém morrendo eternamente para ele; rompendo a cadeia que os unia, e abandonando-o a essa infeliz, como um sobejo da traição.
Nos dias que seguiram esta cena, Amália foi má. Sua alma se tinha saturado de fel; os sentimentos afetuosos eram recalcados por um despeito violento.
Anunciara-se a estréia de uma companhia italiana no Teatro Lírico.
Amália assistiu à representação. Queria vingar Julieta cobrindo de desprezo a todos os homens, especialmente os homens que fingiam o amor. Desejava sobretudo encontrar Henrique Teixeira para exprobrar-lhe a indignidade do amigo.
Os cantores eram medíocres; fossem embora insignes, Amália não lhes prestaria atenção naquela noite. Abriu o binóculo, e correu-o pelos camarotes, não para apreciar os trajes como costumava, mas para os criticar e às donas também; para dar alvo a seu pungente sarcasmo.
Em um camarote fronteiro descobriu Hermano e perturbou-se.
Que vinha fazer aquele homem ao espetáculo? Antes, devia este fato surpreendê-la; agora não; era tão natural!
A mulher que em uma das noites passadas ela vira no aposento da esposa traída, a rival de Julieta, com certeza estava no teatro; e o indigno amante só viera para acompanhá-la, e gozar da admiração produzida por sua beleza.
Amália notou que Hermano, apesar de estar só no camarote, deixara o lugar fronteiro à cena, e sentara-se no outro voltado para o fundo da sala. Parecia escutar atentamente a ópera; mas olhava com insistência para a segunda ordem.
Acompanhando a direção desse olhar, Amália fitou um camarote diagonal ao seu. Havia ali uma mulher vestida com muito luxo.
A saia de gorgorão verde com rendas finíssimas atufava-se por entre as grades.
Estava de costas. A moca não podia enxergar-lhe o rosto, que se retraía com o movimento do corpo ao voltar-se. Descobria, porém, uma madeixa de cabelos negros; e descansando sobre o acolchoado de veludo escarlate um braço alvo e torneado pelo mesmo molde do outro, que vira na mesa de charão.
Esta observação irritou a indignação de Amália. Antes de terminar o espetáculo ela deu-se por incomodada e realmente estava. Quando já se retiravam, apareceu Henrique Teixeira; a moça não lhe deu atenção. A vontade que tinha de lançar-lhe em rosto a traição do amigo cedera a outro sentimento, ao pudor. Agora tinha vergonha de conhecer essa intriga vil e de ocupar-se com ela.
Quando se esmerava na cantoria, Amália tomara o hábito de recordar os trechos de ópera que ouvia no teatro. Assim fixava as suas observações de véspera; imitava as belezas, e corrigia o seu método.
Por isso ao acordar lembrou-se do piano já tão esquecido; e depois do almoço dirigiu-se à sala. Se ao recolher-se perguntassem que ópera se tinha cantado, ela com certeza não poderia responder. Agora, porém, recordava-se perfeitamente; fora a Lucia de Donizetti. A música ficara-lhe no ouvido.
Abriu a partitura e cantou a parte de soprano. Disse admiravelmente o delicioso allegro da fonte; mas na grande ária da loucura excedeu-se. Não era o delírio da noiva escocesa que a inspirava; era o desespero de Julieta, a dor da esposa traída.
Estava aberta uma das janelas, e o sol entrando pela sala chamejava nos espelhos e cristais. A claridade impacientou Amália; estava triste, e achava insuportável essa alegria do céu que vinha importuná-la.
Ergueu-se para fechar a janela, onde a esperava uma surpresa.
Hermano, de pé, à sombra de uma árvore, escutava o canto, em profundo recolhimento. Sua fisionomia denotava que ainda depois de ter cessado a voz, ele ouvia dentro d´ alma o eco, e esperava o seu retorno.
Tinha na mão um jornal e estava sem chapéu, como quem fora surpreendido em casa, a meio da leitura, e viera pressuroso, não lhe importando sair de cabeça descoberta.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.