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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Florência — Já esta manhã mandei falar ao D. Abade por pessoa de consideração, e além disso, tenho uma carta que lhe quero remeter, pedindo-lhe que me faça o obséquio de aqui mandar um frade respeitável para de viva voz tratar comigo este negócio.

Emília — Sim, minha boa mãezinha.

Florência — Chama o José.

Emília — José? José? E a mamãe julga que o primo poderá estar em casa hoje?

Florência — És muito impaciente... Chama o José.

Emília — José?

CENA II

Ambas e José

José — Minha senhora...

Florência — José, leva esta carta ao convento. Onde está o Sr. Carlos, sabes?

José — Sei, minha senhora.

Florência — Procura pelo Sr. D. Abade, e lha entrega de minha parte.

José — Sim, minha senhora

Emília — Depressa. (Sai JOSÉ)

Florência — Ai, ai!

Emília — Tomara vê-lo já!

Florência — Emília, amanhã lembra-me para pagar as soldadas que devemos ao José e despedi-lo do nosso serviço. Foi metido aqui em casa pelo tratante, e só por esse fato já desconfio dele... Lé com lé, cré com cré... Nada; pode ser algum espião que tenhamos em casa...

Emília — Ele parece-me bom moço.

Florência — Também o outro parecia-me bom homem. Já não me fio em aparências.

Emília — Tudo pode ser.

Florência — Vai ver aquilo lá por dentro como anda, que minhas escravas pilhandome de cama fazem mil diabruras.

Emília — E fica só.

Florência — Agora estou melhor, e se precisar de alguma cousa, tocarei a campainha. (Sai EMÍLIA)

CENA III

Florência, só — Depois que mudei a cama para este quarto que foi do sobrinho Carlos, passo melhor... No meu, todos os objetos faziam-me recordar aquele pérfido. Ora, os homens são capazes de tudo, até de terem duas mulheres... E três, e quatro, e duas dúzias... Que demônios! Há oito dias que estou nesta cama; antes tivesse morrido. E ela, essa mulher infame, onde estará. E outra que tal... Oh, mas que culpa tem ela? Mais tenho eu, já que fui tão tola, tão tola, que casei-me sem indagar quem ele era. Queira Deus que este exemplo aproveite a muitas incautas! Patife, agora anda escondido... Ai, estou cansada... (Deita-se) Mas não escapará da cadeia... seis anos de cadeia... assim me disse o procurador. Ai, minha cabeça! Se eu pudesse dormir um pouco. Ai, ai, as mulheres neste mundo... estão sujeitas... a... muito... ah! (Dorme.)

CENA IV

Carlos entra pelo fundo, apressado; traz o hábito roto e sujo.

Carlos — Não há grades que me prendam, nem muros que me retenham. Arrombei grades, saltei muros e eis-me aqui de novo. E lá deixei parte do hábito, esfolei os joelhos e as mãos. Estou em belo estado! Ora, para que ateimam comigo? Por fim lanço fogo ao convento e morrem todos os frades assados, e depois queixem-se. Estou no meu antigo quarto, ninguém me viu entrar. Ah, que cama é esta? É da tia... Estará... Ah, é ela... e dorme... Mudou de quarto? O que se terá passado nesta casa há oito dias. Estive preso, incomunicável, a pão e água. Ah, frades! Nada sei. O que será feito da primeira mulher do senhor meu tio, desse grande patife? Onde estará a prima? Como dorme! Ronca que é um regalo! (Batem palmas.) Batem! Serão eles, não tem dúvida. Eu acabo por matar um frade...

Mestre, dentro — Deus esteja nesta casa.

Carlos — É o padre mestre! Já deram pela minha fugida...

Mestre, dentro — Dá licença?

Carlos — Não sou eu que hei de dar. Escondamo-nos, mas de modo que ouça o que ele diz... Debaixo da cama... (Esconde-se.)

Mestre, dentro, batendo com força —Dá licença?

Florência, acordando — Quem é? Quem é?

Mestre, dentro — Um servo de Deus.

Florência — Emília? Emília? (Toca a campainha)

CENA V

Entra Emília

Emília — Minha mãe...

Florência — Lá dentro estão todos surdos? Vai ver quem está na escada batendo. (Emília sai pelo fundo.) Acordei sobressaltada... Estava sonhando que o meu primeiro marido enforcava o segundo, e era muito bem enforcado...

CENA VI

Entra Emília com o Padre-Mestre

Emília — Minha mãe, é o Sr. Padre-Mestre. (À parte:) Ave de agouro.

Florência — Ah!

Mestre — Desculpe-me, minha senhora.

Florência — O Padre-Mestre é que me há de desculpar se assim o recebo (Sentase na cama.)

Mestre — Oh, esteja a seu gosto. Já por lá sabe-se dos seus incômodos. Toda cidade o sabe. Tribulações deste mundo...

Florência — Emília, oferece uma cadeira ao Reverendíssimo.

Mestre — Sem incômodo. (Senta-se.)

(continua...)

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