Por José de Alencar (1870)
Por mais que se apressasse o leão, chegando à saída, apenas viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amélia, que lhe sorriu e inclinouse para acompanhá-lo com os olhos.
— E ela! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. Há pouco, vendo-a passar pela Rua do Ouvidor, tive um pressentimento! Aquele andar cheio de graça não podia enganar.
No dia. seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amélia, abastado consignatário de café, estabelecido à Rua Direita. O encontro deu-se na Praça do Comércio. Horácio aí foi a pretexto de comprar apólices; e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquele serviço. O negociante ofereceu a casa ao moço que aceitou a fineza com efusão de contentamento.
O Sr. Pereira Sales habitava nas Laranjeiras uma bela chácara. Amélia era filha única, e seu dote, convertido em cem apólices, só esperava o noivo. Quanto à mulher, tinha uma boa pensão instituída no montepio geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza, economizando pouco ou nada de seus lucros anuais.
Quando Horácio teve conhecimento destas particularidades domésticas, sorriu.
— Bem! O meu pezinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com luxo!
A primeira vez que Horácio visitou a família de Pereira Sales, encontrou Laura na sala; a moça fora passar a noite com a amiga, e conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes depois, inventou um pretexto para retirar-se, apesar das instâncias de Amélia.
Horácio pouca ou nenhuma atenção deu à mudança que se tinha operado em Laura, em sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para ele uma criatura indiferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a fímbria de seda, que lhe ocultava o tão ansiado tesouro.
Em Amélia, várias impressões produziu a apresentação do moço. No primeiro momento acreditou que o leão viera atraído por ela; mais tarde, lembrando-se do teatro, suspeitou que fosse apenas um meio de aproximar-se de Laura; finalmente ocorreu-lhe que podia não passar de um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horácio.
Suas dúvidas porém se dissiparam poucos dias depois.
Uma noite a moça, impelida por um movimento de faceirice, soltou estas palavras, no meio de uma conversa com o leão:
— Laura está uma ingrata! Há tanto tempo que não vem passar uma noite comigo.
Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço para ver a expressão de sua fisionomia.
— É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu Horácio.
— Uma fineza?... perguntou Amélia pressentindo laivos de ironia.
— Quando sua amiga está aqui, a senhora sem dúvida não a deixa!
— É muito natural.
— Já vê pois que eu tenho razão. Se ela viesse...
— Eu teria ciúmes, D. Amélia,
A moça corou.
— Pois amanhã Laura há de passar a noite comigo.
Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura disfarçar um prazer sob a máscara da contrariedade. Mas a máscara é tão risonha, que não ilude.
— Quer-me tanto mal assim? perguntou Horácio. Não admira; uma paixão ardente e impetuosa, como eu sinto pela senhora, não devia ter outra sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não há mulher que o compreenda.
Amélia com as faces a arder não sabia que fizesse; sua mão trêmula brincava com as flores de um vaso, que vacilou sobre o consolo e caiu no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a atenção das pessoas que estavam na sala; assim rompeu-se o enleio de Amélia
A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuraram Horácio, para oferecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos lábios.
Esse sorriso dizia em sua eloqüência muda o seguinte:
— Se nunca a mulher soube compreender a verdadeira paixão, serei eu a primeira.
Foi esta pelo menos a tradução de Horácio, perfeito filólogo do amor, e habituado a decifrar esses hieróglifos dos lábios de mulher.
CAPÍTULO VIII
Não abandonemos o pobre Leopoldo à sua amarga decepção.
O moço chegara a casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre ele derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amélia não lhe causasse tamanho pesar, como o daquela cruel decepção que estava presentemente curtindo.
O aleijão excita geralmente uma invencível repugnância, repassada de terror. A aberração da forma humana abate o orgulho do bípede implume, fazendo-o descer abaixo do orangotango. Ao mesmo tempo, é ameaça viva a uma das mais caras aspirações do homem: a esperança de renascer em outra criatura, gerada de seu ser. Se a fatalidade pesar sobre a prole querida?
Imagine-se que dor era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da virgem de seus castos sonhos?
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.