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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Lembro-me agora! O velho, é o mesmo que me repeliu, quando eu o acabava de salvar do cão danado. Daquela vez tinha razão: meu contacto o enchia de horror; mas desta, que mal lhe fiz para me precipitar nesta voragem do desespero?


4 DE MAIO

Sei tudo!...

O velho é avó de Úrsula. Percebeu sem dúvida o aparecimento naquele sítio de um vulto suspeito, e quis reconhecê-lo.

Acendeu a fogueira, que devia esclarecer a minha figura, e fugiu aterrado, por si e pela neta.

Não lhe quero mal por isso.

Salvar a filha de seu sangue é um dever de todo o homem. Em seu lugar eu faria mais. Exterminaria ali mesmo o pestiferado para que nunca mais ousasse envenenar o ar que ela, a inocente, respirava.

Úrsula não tornou, e eu rogo a Deus que não me apareça nunca mais. Assim terei ao menos o consolo de olhar os muros que a escondem à minha vista, mas não ao meu coração. Presente ela, ,nunca ousarei eu aproximar-me daqueles sítios.

O horror a afastou para sempre. Ainda bem! Ao menos não receberei dela o asco e desprezo que o mundo arremessa sobre mim; e poderei guardar dentro em minha alma, doce e com passiva, a linda imagem que me sorriu um dia através das agruras de uma mísera existência.


6 DE MAIO

Misérrimo de mim!... Despedacei a flor que desabrochara entre as urzes de minha alma, e derramava nela o seu mago perfume!... Apaguei a estrela que rompera um instante a procela de minha vida, para infundir-me no seio uma luz celeste!

Úrsula anseia nas vascas da agonia e fui eu que a matei; foi o horror de minha miséria que a assassinou.

Quando pressenti a fatal nova, pela agitação que ia na casa, perdi toda a razão, e precipiteime pelos aposentos em busca da câmara onde se finava a minha única e fugaz alegria deste mundo.

Perceberam-me os da família; e esquecendo um instante a sua dor, esbordoaram-me com tamanha ira que ali caí sem espírito, com o corpo macerado.

Despertou-me uma reza cantada ali perto, e as luzes das tochas que desfilavam pela praia.

Era o enterro de Úrsula.

Levaram-na à Igreja de São Pedro Gonçalves. Vi deporem seu ataúde na essa rodeada de tocheiros e guardada pelas beatas.

A meia-noite voltarei.


6 DE MAIO

Introduzi-me na igreja por uma janela baixa da sacristia, cuja grade estava carcomida.

Vendo à luz baça dos tocheiros assomar um vulto, as beatas fugiram assombradas. Fiquei só ali em frente do ataúde.

Nesse momento Úrsula me pertencia; ninguém a disputava à minha adoração.

Como era bela no eterno sono em que repousava do mundo e de suas misérias! Tinha nos lábios aquele mesmo sorriso que derramava sobre mim, agora tocado de um reflexo lívido. Estava branca e imaculada como os anjos; eram níveas como as faces as rosas que lhe cingiam os bastos cabelos crespos.

Quis beijá-la e recuei!... Ainda morta, e brevemente pasto dos vermes, não ousei profanar o despojo santo da formosa criatura.

Nesse momento ouço rumor do lado da sacristia. É a gente curiosa que vem trazida pelas beatas, para espancar o espetro. Querem roubar-ma outra vez!...

Mas não o conseguirão! Hei de disputá-la até aos vermes e ao pó da terra.

Cingindo ao peito o corpo de Úrsula, arrojei-me fora da igreja, e vim depositá-lo aqui, onde ninguém ousará perseguir-me. As portas estão eiscâncaras, dia e noite, batidas pelo vento; guardadas porém uma fera mais terrível que Cérbero, a peste.

Agora sim, Úrsula, tu me pertences para sempre, como eu a ti.

Que se passa?

Ouço a plebe a rugir lá fora; uma chama súbita enrosca-se pela treva como o dragão.

Compreendo: deitaram fogo à casa para exterminar o maldito!

Graças, meu Deus! Este fogo me redimirá da maldição que pesa sobre mim, e purificará meu ser. Assim ao menos poderão minhas cinzas se unirem com as de Úrsula!

Bem-vindas, chamas amigas! Aqui estamos; cingi-nos, abraçai-nos, para que em vosso seio fecundo, celebremos as núpcias da eternidade.


9 DE MAIO

Eis-me outra vez no mundo e só... Só, não; que me acompanham ainda e sempre o meu desespero, e a sanha do mundo.

O fogo não me quis; teve asco de mim, como tivera o mar, e o cão danado. Não ousou tocarme; tal é a repulsão que derramo em torno.

Com o incêndio abateu-se uma parede do aposento em que me achava, levantando a extremidade oposta do soalho com tal violência, que me arremessou pela janela em cima de um telhado, donde escorreguei ao chão.

Só pela madrugada pude arrastar-me ao montão de ruínas e deitar-me no brasido onde jaziam as cinzas de Úrsula.

Daqui, desse mesmo lugar que ninguém disputaria a um cão, expulsou-me o ódio da gente.

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