Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
INÊS – Asila, meu padrinho, asila, e sabe melhor do que nós o que há de fazer. Já jantou?...
BENJAMIM – Qual! e confesso... estou morrendo de fome!...
MENDES – Ela resolve todas as questões, e decide da minha vontade, como se talhasse um vestido.
INÊS – Eu também tenho muita fome. Meu padrinho, vamos jantar?...
MENDES (À parte) – Então?... chegou-lhe de repente o apetite!... o rapaz curou-a do fastio! (A Inês) Eu jantei, enquanto estavas tomando os vestidos do teu sexo. Comam alguma coisa... isso não é jantar... é um petisco (Os dois sentam-se)
INÊS (Enquanto Benjamim serve) – Isto aqui é céu aberto!... meu padrinho tem tudo, e até uma menina sua vizinha, que é por força do meu corpo, e que lhe emprestou vestido completo para mim... (Comem).
BENJAMIM – A senhora não repare no meu assanhamento devorador... no convento puseram-me de penitência!...
INÊS – Coma... não se vexe... (Come).
BENJAMIM – Como... como... (Comendo) O vestido da vizinha assenta-lhe muito bem... (Comendo).
MENDES (À parte) – Que dois pombinhos!... é natural! o compadre que vá plantar couves; ele fez a mesma coisa com a comadre.
INÊS – Viva meu padrinho! (Toca no copo).
BENJAMIM – Viva o nosso anjo protetor! (Bebe).
MENDES – Obrigado. (À parte) Fazem-me pau de cabeleira; mas eu deito-lhes água. na fervura. (A Inês) E se chegar teu pai com a cadeirinha?...
INÊS (Levanta-se) – Meu padrinho me defenderá.
MENDES – Teu pai tem a lei por si.
INÊS – Sou capaz de atirar-me da janela abaixo.
BENJAMIM – E eu logo atrás: juro-o! dora avante o que ela fizer, eu idem!...
VOZES (Dentro) – Viva o vice-rei! viva o Conde da Cunha.
BENJAMIM – E a troça que volta (A Inês) vamos acabar de jantar.
INÊS – E maldito seja o vice-rei! (Vão para a mesa).
CORO (Dentro.)
— Viva o vice-rei
Nosso protetor!
Viva o pai do povo
Viva o benfeitor (O coro passa)
BENJAMIM— Oh, pois não!... o Conde da Cunha é boa jóia (Come). MENDES (À parte) – Só o amor honesto e puro merece proteção: Inês está deveras apaixonada; mas... quero fazer uma experiência...
BENJAMIM – Dá licença que eu faça uma saúde à sua linda afilhada?
MENDES – Homem, faça quantas saúdes quiser com a condição de não me pedir licença (À parte) Que diabo de papel querem eles que eu represente!
BENJAMIM – Senhora Inês... não digo mais nada! (Bebe).
INÊS – Sr. Benjamim... (Bebe: levantam-se).
MENDES – Vamos agora ao positivo: eu só vejo um recurso para vocês dois.
INÊS – Proposto por meu padrinho, aceito-o de olhos fechados.
MENDES – Vou alugar já um barco: vocês fogem nele para Macacu, e, lá chegados, tratam logo de casar-se...
BENJAMIM (Olhando Inês) – Espero... que ela fale... já o disse, eu atrás... sempre idem! (À parte) Se ela quisesse!...
INÊS – Perdão, meu padrinho!... (Triste) Não fugirei com um homem que ainda não é meu marido.
BENJAMIM (À parte) – E então?... olhem, se eu me adianto!... nada: agora é sempre depois! o que ela fizer eu idem!.
MENDES (Abraçando Inês) – Reconheço-te! (Aperta a mão de Benjamim) Respondeste, como devias, rapaz! muito bem!...
BENJAMIM – Ora!... pode crer que sou homem muito sério! (À parte) Olhem, se eu me adianto...
MENDES – Podem contar comigo: Inês, hei de casar-te com o... filho do Jerônimo...
INÊS – Mas quem é o filho do Jerônimo?
BENJAMIM – Não é ninguém... sou eu mesmo
INÊS – Oh, padrinho!... (Beija-lhe a mão e abraça-o) Sr. Benjamim, cantemos, saudando a nossa felicidade!. . .
BENJAMIM – Pronto!... cantemos...
MENDES – Vocês já me encantaram bastante; mas cantem! cantem!...
INÊS (Canta) – Amor é flama ardente: mas cuidado
tenho no fogo ativo;
Amo; mas meu amor é sem pecado;
Sou moça de juízo
E assim gozo o encanto
Do amor que é puro e santo.
BENJAMIM – Amor é flama ardente, e me devora
Como fogo em palheiro;
Sou porém rapaz sério, que ama, adora
E nunca foi gaiteiro,
Eu amo apaixonado;
Mas puro... sem pecado.
MENDES – Assim é que é... honestidade sempre...
INÊS – Certa é nossa dita
BENJAMIM – Do céu é favor!...
BENJAMIM e INÊS – Padrinho, padrinho
Nós temos juízo!...
Abençoe o siso
Deste nosso amor!...
Padrinho, padrinho,
Abençoe amor!...
MENDES (À parte) – E o brejeiro do Antonica da Silva também já me chama padrinho!... (Alto) Pois lá vai... isto é sério: (Deita a bênção aos dois) E agora quer sim, quer sopas, senhor compadre Peres! (Batem na escada) Oh! diabo! se fosse ele!... (Indo à porta) Quem me honra?...
PANTALEÃO (Dentro) – Pantaleão de Braga.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.