Por Padre Antônio Vieira (1655)
Mas eu não me queixo tanto de Jacó e de Rebeca, que fizeram o engano, quanto de Isac que o não desfez depois de conhecido. Que Esaú padeça, Jacó possua, Rebeca triunfe, e que Isac dissimule! Que esteja tão poderosa a arte de furtar bênçãos, que tire Jacó a bênção da algibeira de Esaú, não só depois de prometida e decretada, senão depois de firmada e passada pelas chancelarias! E que haja tanta paciência em Isac, que lhe não troque a bênção em maldição? O mesmo Jacó o temeu assim. Quando a mãe o quis meter nestes enredos, disse ele que temia que seu pai descobrisse o engano, e que em lugar da bênção lhe deitaria alguma maldição: Timeo ne putet me sibi voluisse illudere, et inducam super me maledictionem pro benedictione.28 Mas Rebeca não fez caso deste reparo porque conhecia bem a Isac, e sabia que não tinha o velho cólera para tanto. Se Isac tivera outro valor, a bênção se restituira a Esaú, e Rebeca sentira o fingimento, e Jacó amargara o engano. Mas nem Isac era pai para aquele Jacó, nem marido para aquela Rebeca. E que Esaú fique privado do seu morgado para sempre, e que nem Rebeca que lho tira, nem Jacó que lho possui, nem Isac que lho consente, façam escrúpulo deste caso! Doutores há que condenam tudo isto, e outros há que o escusam. Eu não escuso nem condeno; admiro-me com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
§IX
Quando? Quando fazem os ministros o que fazem, e quando fazem o que devem fazer? Antigamente estavam os tribunais às portas das cidades: agora estão as cidades às portas dos tribunais. Efeitos terríveis das dilações no atender os requerimentos. Cristo e seu requerimento ao Pai no Horto das Oliveiras. O desengano, grande alívio para os não despachados.
Quando? Esta é a
última circunstância do nosso exame. E quando acabaria eu se houvera de seguir
até o cabo este quando? Quando fazem os ministros o que fazem, e quando fazem o
que devem fazer? Quando respondem? Quando deferem? Quando despacham? Quando
ouvem? Que até para uma audiência são necessários muitos quandos. Se fazer-se
hoje o que se pudera fazer ontem, se fazer-se amanhã o que se devera fazer
hoje, é matéria em um reino de tantos escrúpulos e de danos muitas vezes
irremediáveis, aqueles quandos tão dilatados, aqueles quandos tão desatendidos,
aqueles quandos tão eternos, quanto devem inquietar a consciência de quem tiver
consciência?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.