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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Em todos os outros impossíveis que se representam ao gentio neste mistério corre o mesmo. Parece impossível neste mistério que a substância do pão passe a ser corpo de Cristo; parece impossível que a quantidade do pão ocupe um só lugar na mesma hóstia; parece impossível que o mesmo manjar cause morte e cause vida; parece impossível que o mesmo Cristo esteja juntamente no céu e mais na terra; parece impossível que desça Deus cada dia à terra para se unir com o homem e o levar ao céu; e parece finalmente impossível que o homem comendo se transforme, com um bocado, de homem em Deus. Mas, se os gentios criam (desfaçamos todos esses impossíveis) se os gentios criam que Dafne se converteu em louro, que Narciso se converteu em flor, que Niobe se converteu em mármore, Hipomenes em leão e Aretusa em fonte, que razão lhes fica para duvidar que o pão se converte em corpo e o vinho em sangue de Cristo?11 Se os gentios criam que no corpo de Gerião havia três corpos, que razão têm para duvidar que a quantidade do corpo de Cristo, e a quantidade do pão, sendo duas, ocupem um só lugar na mesma hóstia?12 Se os gentios criam que a espada de Aquiles feriu a Telefo, quando inimigo, e que a mesma espada o sarou depois quando reconciliado, que razão têm para duvidar que o mesmo corpo de Cristo é morte para os obstinados e vida para os arrependidos?13 Se os gentios criam que Hecate estava juntamente no céu, na terra e no inferno: no céu com e nome de Lua; na terra com o nome de Diana, no inferno com o nome de proserpina14, que razão têm para duvidar que o mesmo Cristo está no céu e na terra, e em diversos lugares dela juntamente? Se os gentios criam que Júpiter desceu à terra em chuva de ouro, para render e obrigar a Danae, e em figura de águia para levar ao céu a Ganímedes15, que razão lhes fica para duvidar que desça Deus à tenra em outros dois disfarces para render e se unir com os homens nesta vida, e para os levar ao céu na outra? Finalmente se os gentios crêem que Glauco, mastigando uma erva, mudou a natureza e se converteu em Deus do mar16, que dificuldade têm para crer que por meio daquele manjar soberano mudem os cristãos a natureza, e de humanos fiquem divinos? Assim que não lhes fica razão nenhuma de duvidar neste mistério aos gentios, porque tudo o que se manda crer no Sacramento, creram eles primeiro nas suas fábulas.

Nem cuide alguém que é descrédito de nossa religião pareceremse os seus mistérios com as fábulas dos gentios, porque antes esse é o maior crédito da fé e o maior abono da onipotência. Louva Davi os mistérios da lei escrita, e encarece-os por comparação às fábulas dos gentios: Narraverunt mihi iniqui jabulationes, sed non ut lex tua17. Louva S. Pedro os mistérios da lei da graça, e encarece-os por comparação às fábulas da mesma gentilidade: Non enim doctas fabulas secuti, notam facimus vobis virtutem, et praesentiam Jesu Christi18. Notável comparação e notável conformidade entre as duas maiores colunas da lei velha e nova. Se Davi e Pedro querem encarecer os mistérios divinos da fé por comparação à gentilidade, por que os não comparam com as histórias dos gentios senão com as suas fábulas? A profissão da história é dizer verdade, e as histórias dos gentios tiveram feitos heróicos e casos famosíssimos, como se vê nas dos gregos e dos romanos. Pois por que comparam Davi e Pedro os mistérios sagrados, não às histórias, senão às fábulas? Porque as histórias contam o que os homens fizeram, e as fábulas contam o que os homens fingiram; e vencer Deus aos homens no que puderam fazer, não é argumento de sua grandeza, mas vencer Deus aos homens no que souberam fingir, esse é o louvor cabal de seu poder. Que chegassem as obras de sua onipotência onde chegaram os fingimentos de nossa imaginação, que chegasse a onipotência divina obrando, onde chegou a imaginação humana fingindo? Grande poder! Grande sabedoria! Grande Deus! Isto é o que adoramos e confessamos naquele mistério. As fábulas dos gentios foram imaginações fingidas das maravilhas daquele mistério, e as maravilhas daquele mistério são existências verdadeiras das suas fábulas. Pois se as creram na imaginação, por que as hão de negar na realidade? Confesse logo o gentio, convencido da razão, a verdade manifesta daquele Vere, e diga: Vere est cibus, vere est potus.

§IV

Terceiro inimigo: o herege. Objeção: Cristo muitas vezes chama pão a este mistério, logo é pão. É preciso estudar-se a terminologia dos livros sagrados As Escrituras dão nome as coisas, ou pelo que foram, ou pelo que parecem, ou pelo que são. Segunda objeção: se assim é, Cristo poderia ter chamado corpo ao pão, sem que isto viesse alterar a substância do pão. Ainda mais: é chamado vide, pedra e cordeiro, sem ser nenhuma dessas três coisas. Razão da palavra vere. Distinção entre sentido metafórico e verdadeiro.

O herege, como inimigo doméstico, argumenta com o Evangelho, e das palavras de Cristo forma armas contra o mesmo Cristo. Crê e pretende provar que o que está debaixo das espécies sacramentais é verdadeira substância de pão, e argüi desta maneira: Cristo no Evangelho chama muitas vezes pão a este mistério: Hic est panis, qui de caelo descendit. Qui manducat hunc panem, vivet in aeternum19 Cristo chama-lhe pão? Logo é pão. Provo a conseqüência, diz o herege. Porque a razão por que os católicos cremos que na hóstia está a substância do corpo de Cristo, é porque Cristo disse: Hoc est corpus meum: Este é meu corpo (Mt. 26,26). Pois se na hóstia está a substância do corpo, porque Cristo disse: Hoc est corpus meum, também na hóstia está a substância de pão, porque Cristo disse: Hic est panis.



(continua...)

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