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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Por isso, Sebastião, enquanto eu estiver fora, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisaa Luísa! Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona. É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: "Alto lá, isso não pode ser!" Que então cai logo em si, e é a primeira!... Vens por aí, fazes-lhe companhia, fazes-lhe música, e se vires que a Leopoldina aparece ao largo, tu logo: "Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não!" Que ela, sentindo-se apoiada, tem decisão. Se não, acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: "Não te quero ver, vai-te!" Não tem coragem para nada; começam as mãos a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca... É mulher, é muito mulher... Não te esqueças, hem, Sebastião?

- Então havia de me esquecer, homem?

Sentiram então o piano na sala e a voz de Luísa ergueu-se, fresca e clara, cantando a Mandolinata:

Amici, la notte è bella, La luna va spuntare.

- Fica tão só, coitada!... - disse Jorge.

Deu alguns passos pelo escritório, fumando, com a cabeça baixa:

- Todo o casal bem organizado, Sebastião, deve ter dois filhos! Deve ter pelo menos um!...

Sebastião coçou a barba em silêncio - e a voz de Luísa, elevando-se com certo esforço áspero, nos altos da melodia:

Di cà, di là per la città

Andiamo a transnottare...

Era uma tristeza secreta de Jorge - não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vésperas do casamento, lá sonhava aquela felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de roscas, e os cabelos anelados, finos como fios de seda; ou rapaz forte, entrando da escola com os livros, alegre e de olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres; ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças caídas, vindo pousar as mãos nos seus cabelos já grisalhos...

Vinha-lhe, às vezes, um medo de morrer sem ter tido aquela felicidade completadora!

Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava; depois, no piano, Luísa recomeçou a Mandolinata, com um brio jovial.

A porta do escritório abriu-se, Julião entrou:

- Que estão vocês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até à volta, meu velho, hem? Também ia contigo tomar ar, respirar, ver campos, mas...

E sorriu com amargura. - Àddio! Àddio!

Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçá-lo outra vez. Se quisesse alguma coisa do Alentejo...

Julião carregou o chapéu na cabeça:

- Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dois!

- Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!

Embrulhou-lha num Diário de Notícias; Julião meteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:

- Cuidado com as sezões, e descobre uma mina de ouro!

Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luísa começava uma valsa de Strauss - o Danúbio azul.

Jorge disse, rindo, estendendo os braços:

- Uma valsa, D. Felicidade?

Ela voltou-se, com um sorriso. E por que não? Em nova era falada! Citou logo a valsa que dançara com o senhor D. Fernando, no tempo da Regência, nas Necessidades. Era uma valsa linda, dessa época: A pérola de Ofir.

Estava sentada ao pé do Conselheiro, no sofá. E como retomando um diálogo mais querido continuou, baixo para ele, com uma voz meiga:

- Pois creia, acho-o com ótimas cores.

O Conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de seda da Índia.

- Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?

- Ai! Estou outra, Conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gases... Estou outra!

- Deus o queira, minha senhora, Deus o queira - disse o Conselheiro esfregando lentamente asmãos.

Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôs-se a dizer:

- Espero que esse interesse seja verdadeiro...

Corou. O corpete flácido do vestido de seda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.

O Conselheiro recaiu lentamente no sofá - e com as mãos nos joelhos:

- D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...

Ela levantou para ele os seus olhos pisados, de onde saíam revelações de paixão e súplicas de felicidade:

- E eu, Conselheiro!...

Deu um grande suspiro, pôs o leque sobre o rosto.

O Conselheiro ergueu-se secamente. E com a cabeça alta, as mãos atrás das costas; foi ao piano, perguntou a Luísa curvando-se:

- É alguma canção do Tirol, D. Luísa?

- Uma valsa de Strauss - murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.

- Ah! Muita fama! Grande autor!

Tirou então o relógio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solenidade:

- Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alentejo! O clima é nocivo, a estaçãotraiçoeira!

E apertou-o nos braços com uma pressão comovida. D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.

- Já, D. Felicidade? - disse Luísa.

Ela explicou-lhe, ao ouvido:

- Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas vagens e tenho estado!... E aquelehomem, aquele gelo! O Sr. Ernesto vem para os meus sítios, hem?

- Como um fuso, minha senhora!

(continua...)

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