Por Eça de Queirós (1870)
Deus que ambos tenhamos no aplau so das nossas consciências e no prazer que dão cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da cena a que assistiu. Re stituolhea mais completa liberdade. Adeus!
Apertámos a mão, eu saltei. Ele fechou a portinhola, abriu os estores e estendendo-mepara fora um pequeno cartão: — Guarde essa lembrança — disse. — É o meu retrato. Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a fotografia avi damente, olhei. O retratoestava também mascarado!
— É um capricho do ano passado, depois de um baile de másca ras! — gritou ele,estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote. Via-a afastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapéu der rubado, uma capa traçada sobre o rosto.Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melanco lia! Aquele trem levava consigo um segredo inexplicável. Nunca mais veria aquele homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo
O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sofá, que lhe servia de sarcófago. Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancólica. Ao longedistinguia ainda o trem. Um camponês apa receu vindo do lado oposto àquele por onde ele desaparecia.
— Onde fica o Cacém?- De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quar to de légua.
A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Sintra.Cheguei ao Cacém fatigado. Mandei um homem a Sintra, à quinta de F..., saber se tinham chegado os cavalos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janela, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as árvores e para os campos. Ha via meia horaque estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavalo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quase indistinto do cavaleiro. Ia para Lisboa embuçado emuma capa alvadia.
Tomei informações a respeito da carruagem que passara na véspera connosco. Havia contradições sobre a cor dos cavalos.Voltou de Sintra o homem que eu ali mandara, dizendo que na quinta de F... tinham sido entregues os cavalos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores, ao pé doCacém, tinham encontrado um amigo que os levar a consigo em uma caleche para Lis boa. Daí a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F... O criado tinha recebido este bilhete a lápis:
Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid.
Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquie tar-me. F... estavaevidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.Entregar à polícia este negócio, tão vago e tão incompleto como ele é, seria tornar-me o denunciante de uma quimera. Sei que, em resultado das primeiras notícias que lhe dei, o Governador Civil de Lisboa oficiou ao administrador de Sintra convidando-o a meter o esforço da sua polícia no descobrimento deste crime. Foram inúteis estas providências. Assim devia ser. O sucesso que constitui o assunto destas cartas está por sua natureza fora da alçada das pesquisas policiais. Nunca me dirigi às autoridades, quis simples mente valer-me do público, escolhendo para isso as colunas popu lares do seu periódico. Resolvi homiziar-me, receando ser vítima de uma emboscada.
São óbvias, depois disto, as razões por que lhe o meu no me: assinar estas linhas seriapatentear-me; não seria esconder-me, como quero.
Do meu impenetrável retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do Sol nascenteatravés das minhas gelosias. Ouço os pregões dos vendedores matinais, os chocalhos das vacas, o rodar das carruagens, o murmúrio alegre da povoação que se levanta de pois de um sono despreocupado e feliz... Invejo aqueles que não tendo a fatalidade de secretas aventuraspasseiam, conversam, mourejam na rua. Eu — pobre de mim! — estou encarcerado por um mistério, guardado por um segredo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.