Por Eça de Queirós (1901)
Madame de Oriol teve um movimento de carinhoso escândalo e dor. O quê! pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da Quaresma? De resto não se admirava – Jacinto era um turco! E, imediatamente celebrou o pregador, um frade dominicano, o Père Granon! Ó! duma eloqüência! No derradeiro sermão pregara sobre o amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas duma inspiração, duma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrível que esmagava, em que se lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nu, um braço soberbo, muito branco, muito forte!
O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do véu negro. E Jacinto, rindo: -Um bom braço de diretor espiritual, hem? Para vergar, espancar almas...
Ela acudiu:
-Não! infelizmente o Père Granon confessa!
E de repente reconsiderou – aceitava um biscoito, um cálice de Tokai. Era necessário um cordial para afrontar as emoções do Père Granon! Ambos nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato de bombons. Franziu o véu para os olhos, chupou à pressa um bolo que ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no chapéu que ela trazia, se curvara com curiosidade, impressionado, Madame Oriol apagou o sorriso, toda séria ante uma coisa séria:
-Elegante, não é verdade?... É uma criação inteiramente nova de Madame Vial. Muito respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.
O seu olhar, que me envolvera, também me convidava a admirar. Aproximei o meu focinho de homem das serras para contemplar essa criação suprema do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das plumas frisadas, aninhada entre rendas, fixada pôr um prego, pousava delicadamente, feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!
Ambos nos extasiamos. E Madame de Oriol, num movimento e num sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Madalena.
O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E bruscamente, levantando os ombros com uma determinação imensa, como se deslocasse um mundo:
-Ó Zé Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa simples e natural...
-Em quê?
Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, através da Vida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois, descansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito longe, cansados e com pouca esperança:
-Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!
IV
Nessa fecunda semana, uma noite, recolhíamos ambos da Ópera, quando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202.
-Uma festa?...
-Pôr causa da Grão-duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu queria um almoço curto. – O Grão-duque reclamou uma ceia. É um bárbaro, besuntado com literatura do século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reúno no Domingo três ou quatro mulheres, e uns dez homens bem típicos, para o divertir. Também aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma maçada amarga!
Sem interesse pela sua festa, Jacinto não se afadigou em a compor com relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia áspera da Czardas ainda nesses tempos remotos emocionavam Paris); e mandou, na Biblioteca, ligar o Teatrofone com a Ópera, com a Comédia Francesa, com a Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos desde o trágico até ao pícaro. Depois no Domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa da ceia que resplandecia com as velhas baixelas de D.Galião. E a faustosa profusão de orquídeas, em longas silvas pôr sobre a toalha bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, transbordando de cristais lavrados e filigranados de ouro, espalhava uma tão fina sensação de luxo e gosto, que eu que eu murmurei: - “Caramba, bendito seja o dinheiro!” Pela primeira vez, também, admirei a copa e a sua instalação abundante e minuciosa – sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades da cozinha, um para os peixes e carmes aquecido pôr tubos de água fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas frigoríficas. Ó, este 202!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.