Por Coelho Neto (1897)
Começava a divindade a visitar o sofrimento; a peregrinação de Deus através da agonia anunciava-se pelo primeiro choro.
Ele havia de conhecer todas as dores, todas as angústias para poder julgá-las aliviando o homem, cuja redenção trazia.
Teatro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava apenas – era a iniciação.
Outros maiores tormentos formavam a falange suplicante, a alameda trágica da existência, onde a alegria é como o nimbo solar que passa dificilmente por entre as frondes compactas.
Que fazer? Deu-lhe o peito. Pôs-se o infante a mamar vagindo, estremecendo a ela, relanceando em torno dos olhos úmidos e aflitos, implorava o mistério.
Tudo era silêncio em volta, ninguém que a socorresse. E os anjos? Já haviam regressado ao céu.
O infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrara desacompanhado
no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na humanidade.
Só lhe valeram os carinhos de Maria; o calor do colo, o enlace amoroso dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, aliviando-o e, de novo, adormeceu tranqüilo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno.
RECEIO
Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de ouro em torno da cabeça do infante adormecido.
Todas as aves chilreavam, gárrulas moças passavam na estrada. Às vezes eram récuas de dromedários desfilando em ruidoso atropelo.
Maria prestava atenção ao rumor, receando pelo filho. Tomou-o muito ao seio e, quase de rastros, aprofundou-se na sombra escondendo o seu tesouro com amorosa avareza.
Tão lindo! quem não o desejaria! E se um daqueles homens, descobrindo-o, investisse para arrebatá-lo, quem o defenderia? Na treva ficava a coberto de todos os olhares.
No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gota do estilicídio respondia um som lacrimoso.
O ar era frio e úmido, as paredes luziam lutulentas e, fora, o sol brilhava, alegre e tépido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas agudas da abóbada escabrosa.
Quando José reapareceu, a erva da entrada subitamente esmarriu(1). Vendo deserta a palha estacou, olhando espantado com apreensões de desgraça.
Que seria feito deles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, tremia-lhe a urna ao ombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo:
- Aqui, meu senhor. O patriarca adiantou-se e, sentindo a friagem do sítio, ouvindo o triste gotejar na laje, perguntou:
- Por que buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? Lá fora há um calor macio e sente-se o aroma da ervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui há o silêncio e a melancólica espessidão dos túmulos.
- Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão tímido que eu viveria, de boa mente, num subterrâneo só para que os olhos maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.
Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a todo o instante.
Dizem-me os anjos que ele é Deus. Não me passaram despercebidos os prodígios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh’alma ordena-me que o resguarde, que não o perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez porque é pequeno e fraco.
Não sei se peco com a presunção de defender quem é onipotente, mas como hei de lutar contra mim?
- Mas se o céu nos diz e prova que ele é o filho de Deus, por que hás de recear os homens?
- É o coração que receia. - E entre o que diz o coração e o que afirmam os anjos hesitas, Maria?
- Senhor, os anjos falam pelo céu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo. E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.
Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nela e, como se quisesse responder, sorriu.
O SONO
Maria mal umedeceu os lábios à borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apreensiva. Se o filho estremecia sobressaltava-lhe o coração, se o via imóvel, dormindo, temia que houvesse morrido e logo, ansiosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.
- Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarca, o sono é necessário à vida, é a sombra em que a alma repousa.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.