Por Raul Pompéia (1882)
— É uma história muito bonita, é; mas eu não acredito nada.
— Ao menos foi a explicação que deu o Inácio, quando descobriu o roubo — disse um velho jardineiro, entrando na conversa.
— Eu não quero falar mal dos outros — replicou ainda a teimosa mocetona — mas isto até faz desconfiar que um ladrão de fora havia de saber onde estavam as jóias?
— Isto lá não — contestou a mulher de lenço na cabeça, com o seu ar toleirão —, isso lá não... os ladrões sempre sabem onde estão as coisas; a prova é que roubam... Isso lá não
— Isso, isso, o quê, minha tola? — interrompeu a mocetona. — Você não sabe o que está dizendo... Não se meta aqui...
— Ah! sinhá Chica, não seja tão malcriada com a gente...
— Pois eu tenho culpa de que você seja idiota?...
— Idiota, não!... Por causa de umas sirigaitas sem coração é que a pobre da Emília está lá para morrer... Todo o mundo também a chamava de idiota... mas eram os malvados...
— Ora, é muito boa! — tornou a sinhá Chica, pondo as mãos na cintura como as asas de uma jarra. — É muito boa a Emília estar atrapalhada com a sua tísica! Não sei como se há de culpar os outros...
— Você não se lembra daquela vez que ela chorou por causa da
Conceição?...
— Pois a Conceição veio cá com desaforos comigo... apanhou...
— É! É!... Mas se o seu Januário não fosse um pobre velho, você não havia de fazer mal à criança...
— Vejam só!... ah! ah!... O seu Januário é o primeiro a xingar a nora de maluca e a descompor a Conceição... Demais, a Conceição não tem nada com a Emília... Não é filha... Não é sobrinha... Ainda se eu desse no menino...
— Está bom! Está bom!... Não quero questões com a senhora... — Que me importa!...
Enquanto as duas mulheres discutiam a sua questão pessoal, em outros grupos ainda se debatia vivamente o negócio do roubo.
A crença geral era que o ladrão das jóias não viera do exterior.
Contra esta suposição protestavam, irritados, os lacaios do palácio. Ninguém, todavia, deixava-se levar pelos seus argumentos em defesa da classe, os quais se reduziam todos mais ou menos à história da corda explicada por Inácio, o descobridor do crime.
— Nada! Nada! — diziam. — Como é que um ladrão da rua poderia saber que o lacaio que saiu do palácio do marquês de ***, depois da reunião, levava uma riquíssima porção de jóias? E, caso soubesse, por que não lhe havia tomado o cofre, aproveitando a falta de polícia de qualquer esquina sombria.
CAPÍTULO VIII
A festa do marquês de *** terminara cedo.
Às onze horas, o pequeno número de pessoas, que tinham concorrido a ela, começava a retirar-se.
Não tinha sido verdadeiramente um baile. Fora um pretexto para algumas horas de alegre palestra.
Os vizinhos, acostumados àquelas breves reuniões do marquês, não admiraram de ver cessarem antes da meia-noite os rumores festivos das salas iluminadas do fidalgo.
Os duques de Bragantina não haviam faltado ao especial convite que lhes fora dirigido. Mais ou menos às oito horas, apareceu na porta da sala principal do marquês o senhor de Santo Cristo apertado na mais rigorosa etiqueta. Ostentava no largo peito algumas das inúmeras condecorações de que se fizera merecedor pelos auxílios pecuniários que largamente distribuía.
Pelo braço, trazia a duquesa, séria, mas ricamente vestida e enfeitada de jóias de fabuloso valor. Trazia um colar de diamantes, cheio de enormes pedras de uma pureza incomparável, que constituía o mais precioso legado da fortuna dos primeiros antepassados da duquesa.
Entre os outros adereços, havia um anel pertencente à duquesa d’Etu, que se achava por um motivo qualquer na caixa de jóias da sra. de Bragantina e fora por ela casualmente trazido.
Começou a festa. As moças dançaram. Cantou-se. Houve excelente música e melhor palestra.
No fim de tudo, antes de se recolherem aos aposentos que lhes eram destinados, o duque e a duquesa despiram-se das jóias que traziam.
A duquesa condicionou-as cuidadosamente em um bonito cofre lustrosamente envernizado que o marquês forneceu.
Como o duque de Bragantina tencionava partir com a esposa no dia seguinte, diretamente para Anatópolis, resolveu mandar as jóias para o palácio.
Um criado de sua confiança, que o acompanhara à festa do marquês, foi incumbido de as levar. O homem tomou o cofre, montou o cavalo e, às 11 horas e meia da noite, entrava no palácio de Santo Cristo.
Na quinta, já todos dormiam àquela hora. Apenas uns criados conversavam à porta do palácio. O lacaio pediu-lhes que vigiassem o cavalo, enquanto ia guardar umas coisas, e entrou no edifício.
Foi até a sala grande do lance esquerdo da casa.
— Vou fazer um grande favor, deixa estar — murmurou ele.
E com o cofre que lhe havia sido confiado, dirigiu-se para o armário de espelhos, que se via na sala.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.