Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Ao todo seis carros, inclusive a berlinda, em que ia a pequena nos braços da ama e a mulher o desembargador. As outras eram ocupadas sucessivamente pelo funcionário do governo e D. Branca, pelo Furtado e o Raul, pela viúva Tourinho, pelo tesoureiro do Banco Industrial e a esposa, e o último carro por dois amigos do secretário, rapazes do comércio.

D. Sinhá não quis ir à igreja, deixando-se ficar em companhia de Evaristo e de

Adelaide nas suas toilettes de pouca cerimônia, esperando a volta do batizado — "que era uma grande maçada vestir-se toda de luxo somente para ouvir o latim de monsenhor Teixeira; logo não estavam vendo?..."

Caíam as primeiras sombras da noite quando um rodar de carros anunciou o regresso da Julinha com todo o seu acompanhamento. Encheram-se as janelas de curiosos que queriam ver a criança, e um ligeiro alvoroço percorreu, como um frêmito de novidade, aquele trecho do aristocrático bairro. — É o batizado! é o batizado! — exclamaram vozes alvissareiras; e os carros, um a um, foram parando na mesma ordem da saída, com a mesma distinção, e um a um foram-se apeando os convidados, primeiro os cavalheiros, depois as senhoras, risonhos todos, numa onda invisível de essências. À porta da casa, tapetada de folhas, houve um murmúrio, destacando a voz de Furtado:

— Entrem, meus senhores, queiram ter a bondade...

Seguiu-se o jantar — "um banquete de príncipe!" na opinião de Evaristo. Adelaide foi apresentada à viúva Tourinho e ao Loiola do Banco, houve brindes ao dessert, todos acabaram tratando-se familiarmente, esquecendo o vestido de seda e a casaca, e a própria Julinha que, depois de um berreiro infernal, adormeceu com a serenidade de um anjo.

Era noite quando Luís Furtado ergueu-se para levantar o último brinde, o brinde de honra à "Sereníssima senhora D. Isabel, princesa imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil!" O champanha espumava nas taças de cristal e os hip! hip! hurras! estrondearam em toda a casa.

— À Sereníssima!

— À herdeira da coroa!

— À imperial madrinha da Júlia!

E, todos de pé, esvaziaram as taças.

Furtado observou, então, limpando o bigode, que na sala estava mais fresco.

— Vamos, desembargador... Ó Evaristo, dá o braço à D. Rosa.

D. Rosa era a mulher do Loiola. O bacharel, estranho a etiquetas, muito filósofo, como dizia o secretário, deu dois passos à frente e recebeu amavelmente a mulher do tesoureiro.

— Muito obrigada, Sr. Evaristo, muito obrigada! - repetiu a gorda matrona. — Oh, minha senhora...

E, em procissão, desfilaram os convivas pelo corredor. No alto da escada do segundo andar ocultou-se, rápida, uma sombra de mulher. Instintivamente o desembargador ergueu os olhos, baixando-os logo.

Furtado ia na frente, guiando os amigos, de braço com a ilustre dama de Sua Majestade a Imperatriz.

Agora é que a sala de visitas tinha um aspecto nobre e luxuoso, ao reflexo das serpentinas e do grande candelabro de cristal pendente do teto. Quadros e bibelôs, o piano e a mobília, o espelho de primeira ordem, rodeado de arabescos, a estante de música, as tapeçarias, as cortinas, o papel do forro, tudo resplendia e dava uns tons de alta nobreza ao conjunto.

Adelaide, sempre tímida, vinha de braço com um dos rapazes do comércio.

Sentaram-se todos, rindo, palrando, o tesoureiro com a face congestionada, a mulher idem, ambos muito gordos; a mulher do desembargador com o seu ar indefectível de nobreza pouco comunicativa, querendo parecer mais moça do que na realidade era, assestava de vez em quando o lorgnon de tartaruga, que pendia-lhe de um correntão de ouro, e punha-se a observar uma estampa do imperador, que havia na sala, entre dois consolos, enquanto o velho Lousada falava com a viúva Tourinho acerca dos últimos incômodos do monarca; o secretário instalara-se entre Adelaide e D. Branca e respondia prontamente às perguntas que lhe faziam, ora um dos rapazes, ora D. Sinhá, ora o tesoureiro do Banco, ora o próprio desembargador, interrompendo a conversa com a Tourinho, e volvia-se freqüentemente para a esposa de Evaristo. O bacharel divertia-se a gabar os trajos de Raul, dando-lhe palmadinhas no ombro.

E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade.

— E o Santa Quitéria? — lembrou Furtado com ar de desgosto. Ele, que é um dos meus bons amigos, faltar ao batizado de minha filha!

— E o Dr. Condicional? — saltou Evaristo. — Ainda ontem disse-me que vinha.

— Faltaram todos: o Santa Quitéria, o Pinto, comendador, o Condicional, o Xavier... todos, enfim!

— Todos não! — protestou o velho Lousada, sorrindo —eu aqui estou com minha mulher...

— O desembargador é gente nossa, é de casa — emendou Furtado.

— E eu também sou de casa? — perguntou maliciosamente a viúva.

— V. Exa., com a sua bondade, é de todo o mundo!

— Alto lá, meu amiguinho! — sorriu a boa senhora. — De todo mundo é que não.

E quis saber o que é que o Sr. Furtado entendia por todo o mundo.

Furtado explicou-se razoavelmente.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1314151617...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →