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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Sofrera muito no Seminário, mas desses tormentos indizíveis, de que apenas recordava os transes principais, saíra robustecido na fé e na crença, e com a segurança do seu valor próprio, da sua máscula energia, da sua inquebrável força de vontade.

Macário, batendo devagarinho à porta do quarto, comunicou respeitosamente:

— Saberá V. Rev.ma que a janta está na mesa.

CAPÍTULO III

Chovia. Era um aguaceiro forte de meados de março que lavara as ruas malcuidadas da vila, ensopando o solo ressequido pelos ardores do verão. O professor Francisco Fidêncio Nunes despedira cedo os rapazes da classe de latim, os únicos que haviam afrontado o temporal; e olhava pela janela aberta, sem vidros, pensando na necessidade que lhe impusera o Regalado de passar aquele dia inteiro dentro de quatro paredes, por causa da umidade, fatal ao seu fígado engorgitado.

A caseira, uma mulata ainda nova, chamara-o para almoçar.

Naquele dia podia oferecer-lhe uma boa posta de pirarucu fresco, e umas excelentes bananas-da-terra, que lhe mandara de presente a velha Chica ha Beira do lago, cujo filho cursava gratuitamente as aulas do professor. A caseira, a Maria Miquelina, sabendo que o senhor professor não poderia comer as bananas cruas, por causa da dieta homeopática do Regalado, cozera-as muito bem em água e sal, preparara-as com manteiga e açúcar e pusera-as no prato, douradas e apetitosas.

Mas o dono da casa nem sequer as provara. Fizera má cara também ao pirarucu fresco, rosado e cheiroso, preparado com cebolas e tomates, e, por almoço, tomara apenas uma xícara de café forte com uma rosquinha torrada, porque a estômago lhe não permitia alimento de mais sustância. Tivera durante a noite um derramamento de bílis, devido à mudança de tempo, erguera-se de cabeça amarrada, ictérico e nervoso. Fora ríspido com os dois ou três rapazes que compareceram à classe de latim, e despedira-os dizendo que iam ter férias, porque a semana santa se aproximava. Tratassem de decorar bem o Novo método, senão pregava-lhes uma peça.

Depois da saída deles, Chico Fidêncio ficara aborecido, vagamente arrependido de os ter despachado tão cedo. Que iria fazer agora? A chuva continuara a cair torrencialmente, transformando a rua num regato volumoso que arrastava paus, folhas, velhos paneiros sem préstimo, latas vazias e barcos de papel, feitos pela criançada vadia que não tinha medo à chuva. Não passava ninguém, para dar uma prosa. As casas vizinhas estavam fechadas, para evitar que a chuva penetrasse pelas janelas sem vidraça. A flauta do Chico Ferreira, às moscas na alfaiataria, interrompia o silêncio da vila recolhida, casando os sons agudos e picados com o ruído monótono da água repenicando nos telhados.

Que dia estúpido aquele! Silêncio na rua, silêncio na casa! Nem ao menos a Maria Miquelina, de ordinário palradora, queria falar agora! Amuada, pois que o professor lhe desprezara o almoça, sentara-se a um canto de sala de jantar e fazia rendas, silenciosa e trombuda.

Francisco Fidêncio voltara da varanda, e passeava a sala visitas, onde dava as aulas cruzando-a em todos os sentidos, parando diante duma mesa, ora em frente a um quadro, umas vezes ante a porta cerrada, como se tivesse vontade de sair, outras vezes defronte à janela aberta, para olhar a rua, silenciosa e molhada.

Era uma sala pequena, mal caiada, de chão de terra batida, coberta de palha de pindoba escura, uma sala miserável de pobre habitação sertaneja, mas com pretensões a aposento decente. A mobília constava de dois compridos bancos, postos um atrás do outro. Perto duma grande mesa de pinho mal envernizado. Outra mesa pequena colocada a um ângulo da sala era servida por uma cadeira, a única existente, de palhinha branca, de uso antigo. Sobre as duas mesas havia tinteiros, papéis, alguns livros velhos. Da parede do fundo pendiam, em quadro de madeira preta, uma litografia ordinária representando o conselheiro Joaquim Saldanha Marinho, e mais abaixo, num pequeno quadro de moldura dourada, muito gasta, uma gravura burlesca e desrespeitosa intitulada - O sonho de Pio IX. Numa das paredes laterais, pendentes dum pequeno cabide de bambu falso, estavam um chapéu de homem, um guarda-chuva de alpaca cor de pinhão e uma opa de irmão do Santíssimo, ostentando audaciosamente o seu encarnado vivo, ferindo os olhos. Ao lado, sobre um caixão virado, uma rima de jornais em desordem sustentava um candeeiro para querosene, sem abajur e com chaminé rachada. Na parede fronteira, numa litografia de jornal caricato pregada com quatro obreias verdes o papa Ganganelli fulminava com os raios pontificiais a Companhia de Jesus.

No chão mal varrido, com grandes manchas pretas feitas pelos pés molhados dos alunos de latim, pontas de cigarros e palitos de fósforo fraternizavam. Uma galinha com pintos ciscava embaixo da mesa grande, cacarejando.

(continua...)

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