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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Atravessavam-se ainda algumas casas, destinadas a salões de baile, alcovas particulares e câmaras de recreio, tais como biblioteca, sala de fumar, quarto de armas, etc., até chegar a uma enorme varanda que costeava em semicírculo de um lado a outro toda a casa.

Efetivamente, dessa varanda gozava-se de uma vista esplêndida e variadíssima: das janelas da frente devassava-se a Chiaja, Vila Realie e lados de Capo di monte; quem ai estivesse veria o formigar constante e geral da população e sentiria o confuso motim dos cafés, restaurantes, ourivesarias e casas de modas, de que já então abundava a rua de Toledo; daí envolveria agradavelmente com a vista o soberbo Palácio Real com o seu jardim à beira do golfo, e os seus grupos de bronze no começo do jardim.

Do fundo, davam as vistas sobre uma magnífica chácara, pertencente à casa, bem plantada e guarnecida, tendo no centro um belo chafariz de mármore rajado. Galgavam depois os olhos os grupos amontoados de casas e quintais, a alcançavam finalmente os pitorescos arrabaldes, anunciados pela copa de árvores seculares.

CAPÍTULO II

Não há nada tão desastrado e perigoso como mudar repentinamente de posição.

Modificam-se os caracteres mais firmes e delicados e confrangem-se as crenças mais arraigadas; é um desmoronar doloroso, é um despertar de náufrago: ilusões desfeitas, convicções profanadas, afetos destruídos, tranqüilidade nula, amor proscrito — tais são os efeitos da luta desigual dos hábitos de toda vida com o capricho vaidoso de um dia; tais são os rastros que, após a tormenta, sobrenadam à flor do oceano revolto da alma, restos de um coração que naufragou.

Grosseira e estúpida é a que leva o homem a trocar a paz segura do lar pela suposta fortuna.

Foi isso que sucedeu à família do pescador - enriqueceu.

Para alguns, enriquecer é naufragar, não em alto mar, porém em alta sociedade.

O vício é a fome desse naufrágio.

Maffei enfronhara-se na opulência como uma casaca alheia: sentia-se mal; incomodavam-lhe as mangas compridas demais, porém a tudo fechava os olhos, contanto que desses sacrifícios resultassem para ele dignidades e considerações.

Era o seu sonho dourado.

E com essas honras e com esses supostos títulos acharia ele a felicidade?

Não, de certo, porque a verdadeira felicidade é incompatível com o ruído e o fulgor. Não, porque ela é tranqüila, singela, econômica a alheia a tudo que é brilhante e espetaculoso.

A felicidade, como o mais neste mundo, é relativa, e só pode subsistir dentro de seus competentes limites.

Maffei, cego pela ambição, buscava uma felicidade alheia. Desgraçado!...

fatalmente seria vítima da sua cegueira, tanto quanto uma ave que tentasse mergulhar ou um peixe que quisesse voar.

A casa cinzenta da rua de Toledo era propriedade do antigo pescador.

Com algum jeito, conseguiu introduzir nela o jogo elegante; receber todos os sábados e gastar todos os dias.

O Ouro é para o parasita o que o imã é para o ferro: em pouco tempo, encheram-se os salões de Maffei. E no meio daquela gente que o adulava, o rico burguês sentia-se grande, invejado e respeitável..

Entretanto, aquela roda se desenvolvia e multiplicava com a prodigiosa fecundidade da larva.

Mas donde vinha essa gente?

Não sei!... A podridão que responda donde lhe vêm os vermes.

Tudo neste mundo tem a sua conseqüência, o seu séquito próprio de misérias, o seu acompanhamento natural e espontâneo - a glória tem a vaidade; o amor o egoísmo; a podridão o verme. É a lei fatal dos contrastes e dos extremos tocados: não há sentimento que não tenha uma extremidade na terra e outra no céu, um pé no berço e outro no túmulo, um olho na luz e outro na treva.

Foi por isso que, a cabo de três anos, Maffei tinha com heróicos esforços, cevado, relacionado e habituado aos costumes de sua casa uma roda de homens elegantes, que fumavam, bebiam e jogavam à custa dele.

Houve que lhe proporcionasse ocasião de especular com os seus bens: triplicou-os.

Já era poderoso e ridículo, antipático e adulado; é justo viesse a ser rico e desgraçado.

E, com efeito, passava os dias entregue sempre a esse cogitar aborrecido, que produz a preocupação doentia dos homens excessivamente ambiciosos; nada desfrutava, nada o distraía, nada podia arrancá-lo das profundezas de suas preocupações; vivia a mergulhar no fundo dessa cisma constante e estéril, que faz de um homem um bicho insuportável.

Maffei seria insuportável, se não fosse rico.

(continua...)

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