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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Vá, vem - disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar: - Não, não está morta, está naquelasonolência... Mas vem.

Ele ergueu-se, dizendo com mansidão:

- Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.

Saiu da alcova.

O Conselheiro levantou-se, foi abraçá-lo com solenidade:

- Aqui estou, meu Jorge!

- Obrigado, Conselheiro, obrigado.

Deu alguns passas pelo quarto; os seus olhos pareciam preocupar-se com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpá-lo; desapertou as pontas, e viu os cabelos de Luísa. Ficou a olhá-los, erguendo-os, passando-os de uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer:

- Fazia tanto gosto neles, coitadinha!

Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o afastar do leito. Ele debatiase docemente; e, como uma vela ardia sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrandoa:

- Talvez a incomode a luz...

Julião respondeu comovido:

- Já não a vê, Jorge!

Ele soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ela; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhá-la um momento; depois pousou-lhe sobre os lábios frios um beijo, outro, outro, murmurava:

- Adeus! Adeus!

Endireitou-se, abriu os braços, caiu no chão.

Todos correram. Levaram-no para a chaise longue.

E enquanto D. Felicidade num pranto aflito fechava os olhos de Luísa, o Conselheiro, com o chapéu sempre na mão, cruzava os braços, e oscilando a sua calva respeitável, dizia a Sebastião:

- Que profundo desgosto de família!

CAPÍTULO XVI

Depois do enterro de Luísa, Jorge despediu as criadas, foi para casa de Sebastião.

Nessa noite pelas nove horas o Conselheiro Acácio, muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de ver um doente na Rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luísa, do enterro, da aflição de Jorge.

- Pobre rapaz! Aquilo é que é sofrer! - disse Julião compadecido.

- Era uma esposa modelo!... - murmurou o Conselheiro.

De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não pudera ver o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia profundamente. E acrescentou:

- Ultimamente lia eu que aos grandes golpes sucedem sempre sonos prolongados. Assim, porexemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do grande desastre de Waterloo!

E passado um momento, continuou:

- É verdade. Fui ver o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe... - E interrompendo-se, parando: Porque eu entendi que era o meu dever dedicar um tributo à memória da infeliz senhora. Era o meu dever, e não me eximia a ele! E estimo tê-lo encontrado, porque quero saber a sua a opinião conscienciosa e desassombrada.

Julião tossiu, e perguntou:

- É um necrológio?

- É um necrológio.

E o Conselheiro, apesar de não achar próprio, na sua posição, o entrar em cafés públicos, lembrou a Julião que poderiam descansar um momento no Tavares, se não estivesse muita gente, e ele poderia ler-lhe "a produção".

Espreitaram.

Estavam apenas, a uma mesa, dois velhos calados defronte dos seus cafés, com os chapéus na cabeça, apoiados a bengalas de cana-da-Índia. O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala estreita.

- Há um silêncio propicio - disse o Conselheiro.

Ofereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel pautado, murmurou: Infeliz senhora! - Inclinou-se para Julião, e leu:

NECROLÓGIO

À MEMÓRIA DA SENHORA D. LUÍSA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO

Rosa de amor, rosa purpúrea e bela,

Quem entre os goivos te esfolhou na campa?

- É do imortal Garrett! - E continuou com uma voz lenta e lúgubre:

- "... Mais um anjo que subiu ao céu! Mais uma flor pendida na tenra haste que o vendaval damorte, em sua inclemente fúria, arremessou maldesabrochada para as trevas do túmulo..."Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o curvado a remexer o seu café, prosseguiu com entonações mais funerárias:

- "Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão cedo arrancada às carícias do seutalentoso cônjuge. Ali soçobrou, como baixei no escarcéu da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! Por que soluçais?"

- Um café, ó Antônio! - bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de jaquetão, que se sentou aopé, pondo com ruído a bengala sobre a mesa e deitando o chapéu para o cachaço.

O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz:

- "... Não soluceis! Que o anjo se não pertence à terra pertence ao céu!..." - O Sô Guedes esteve já por aí? - perguntou a voz rouca.

O criado disse detrás do balcão, limpando com uma rodinha as travessas de metal:

- Ainda não, senhor D. José!

(continua...)

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