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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Depois de um momento pousou devagarinho a colher, desceu ao quarto. Mariana estava sentada aos pés do leito; Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores; e apenas ela saiu, deixou-se cair de joelhos, tomou uma das mãos de Luísa, chamou-a baixo; depois mais forte:

- Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por melhorar. Não me deixes neste mundo, não tenho mais ninguém! Perdoa-me. Dize que sim. Faze sinal que sim ao menos. Não me ouve, meu Deus!

E olhava-a ansiosamente. Ela não se movia.

Ergueu então os braços ao ar numa desesperação alucinada.

- Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a! - E arremessava a sua alma para asalturas: - Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!

Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu mais imóvel. A face lívida cavava-se; o lenço que lhe envolvia a cabeça desarranjarase, via-se o crânio rapado, de uma cor ligeiramente amarelada. Pôs-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para fora do quarto, e deu com o Dr. Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas.

- Doutor! Está morta! Veja. Não fala, está fria...

- Então! Então! - disse ele. - Nada de barulho, nada de barulho!

Tomou o pulso de Luísa, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração expirante de uma corda.

Julião veio logo. E concordou com o Dr. Caminha que as ventosas eram inúteis.

- Já as não sente - disse o doutor sacudindo o tabaco dos dedos.

- Se se lhe desse um copo de conhaque?... - lembrou de repente Julião. E vendo o olharespantado do doutor: - Às vezes estes sintomas de coma não querem dizer que o cérebro esteja desorganizado; podem ser apenas a inação da força nervosa exausta. Se a morte é irremediável não se perde nada; se é apenas uma depressão do sistema nervoso, pode-se salvar...

O Dr. Caminha, com o beiço descaído, oscilava incredulamente a cabeça:

- Teorias! - murmurou.

- Nos hospitais ingleses... - começou Julião.

O Dr. Caminha encolheu os ombros com desprezo.

- Mas se o doutor lesse... - insistiu Julião.

- Não leio nada! - disse o Dr. Caminha com força - tenho lido demais! Os livros são os doentes...- E curvando-se, com ironia: - Mas se o meu talentoso colega quer fazer a experiência...

- Um copo de conhaque ou de aguardente! - pediu Julião à porta.

E o Dr. Caminha sentou-se comodamente "para gozar o fracasso do talentoso colega".

Levantaram Luísa; Julião fez-lhe engolir o conhaque; quando a deitaram ficou na mesma imobilidade comatosa; o Dr. Caminha tirou o relógio, viu as horas, esperou; havia um silêncio ansioso; enfim o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéu começou a calçar as luvas.

Jorge foi com ele até à porta:

- Então, doutor? - disse, agarrando-lhe com uma força desvairada o braço.

- Fez-se o que se pôde - disse o velho, encolhendo os ombros.

Jorge ficou estúpido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas vagarosas nos degraus caíam-lhe com uma percussão medonha no coração. Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os olhos; Jorge pôs as mãos para ele, com uma ansiedade humilde:

- Então não é possível mais nada?

O doutor fez um gesto vago, indicou o céu.

Jorge voltou para o quarto, encostando-se às paredes. Entrou na alcova, atirou-se de joelhos aos pés da cama, e ali ficou com a cabeça entre as mãos num soluçar baixo e continuo.

Luísa morria: os seus braços tão bonitos, que ela costumava acariciar diante do espelho, estavam já paralisados; os seus olhos, a que a paixão dera chamas e a voluptuosidade lágrimas, embaciavam-se como sob a camada ligeira de uma pulverização muito fina.

D. Felicidade e Mariana tinham acendido uma lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dores, e de joelhos rezavam.

O crepúsculo triste descia; parecia trazer um silêncio funerário.

A campainha, então, tocou discretamente; e daí a momentos apareceu a figura do Conselheiro Acácio.

D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lágrimas, o Conselheiro disse lugubremente:

- Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!

Explicou que encontrara por acaso o bom Dr. Caminha, que lhe contara a fatal ocorrência! Mas muito discretamente não quis entrar na alcova. Sentou-se numa cadeira, colocou melancolicamente o cotovelo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. Felicidade: - Continue as suas orações. Deus é imperscrutável em seus decretos.

Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luísa; olhou então Sebastião, fez-lhe o gesto de alguma coisa que voa e desaparece... Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face enterrada no leito:

- Jorge - disse baixinho Sebastião.

Ele levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabelos nos olhos, as olheiras escuras.

(continua...)

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