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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- O que é? - fez ela muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.

Abriu-a devagar, viu a letra de Basílio, num relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento de um modo desvairado, estendeu os braços sem poder falar, levou as mãos à cabeça com um gesto ansioso como se se sentisse ferida, e oscilando, com um grito rouco, caiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete.

Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Ele quis que Joana corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, enquanto Mariana toda trêmula desatacava os espartilhos da senhora.

Sebastião veio logo. Felizmente havia éter, fizeram-lho respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ela:

- Luísa, ouve, fala! Não, não tem dúvida. Mas fala. Dize, que tens?

Ao ouvir a voz dele desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.

Luísa parecia adormecida agora, imóvel, branca como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lágrimas corriam-lhe devagar pelas faces.

Um trem parou, Julião apareceu esbaforido.

- Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal! - disse Jorge. Fizeram-lhe respirar maiséter; despertou outra vez. Julião falou-lhe, tomando-lhe o pulso.

- Não, não, ninguém! - murmurou ela retirando a mão. Repetiu com impaciência: - Não, vão-se,não quero... - As suas lágrimas redobravam. E como eles saiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:

- Jorge!

Ele ajoelhou-se ao pé da cama, e falando-lhe junto do rosto:

- Que tens tu? Não se fala mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosseo que fosse, não me importa. Não quero saber, não.

E como ela ia falar, ele pousou-lhe a mão na boca:

- Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não sofras! Dize que estas boa! Que tens?Vamos amanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma coisa que passou...

Ela disse apenas com a voz sumida:

- Oh! Jorge! Jorge!

- Bem sei... Mas agora vais ser feliz outra vez... Dize, que sentes?

- Aqui - disse ela, e levava as mãos à cabeça. - Dói-me!

Ele ergueu-se para chamar Julião, mas ela reteve-o, atraiu-o; e devorando-o com os olhos onde a febre se acendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os lábios. Ele deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão.

- Oh, minha pobre cabeça! - gritou ela.

As fontes latejavam-lhe, e uma cor ardente, seca, esbraseava-lhe o rosto.

Como era habituada a enxaquecas, Julião tranqüilizou-os; recomendou um sossego imóvel e sinapismos de mostarda aos pés - até que ele voltasse.

Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de pressentimentos, de sustos, suspirando às vezes.

Eram então quatro horas; caía uma chuva miudinha, enevoada; a alcova tinha uma luz lúgubre.

- Não há de ser nada... - dizia Sebastião.

Luísa agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela dor crescente, cheia de sede.

Mariana acabava de arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada daquela casa, onde só vira desgosto e doença; mas só o pousar sutil dos seus passos fazia sofrer Luísa, como se fossem marteladas sobre o crânio.

Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto dela inquietou-o. Acendeu um fósforo, aproximou-lho do rosto; e aquela luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a cabeça.

Os olhos dilatados tinham um reluzir metálico. Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dores penetrantes que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma expressão de aflição serena e muda.

Julião fez logo pôr três travesseiros, para lhe conservar a cabeça alta. Fora caía o crepúsculo úmido. Andavam em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relógio da parede para afastar o tique-taque monótono. Ela começava agora a murmurar sons cansados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou imóvel gemia de um modo contínuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas num longo sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a língua tornara-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.

Julião fez logo aplicar na cabeça compressas de água fria. Mas o delírio exacerbava-se.

Ora tinha um murmúrio espesso, um vago rosnar modorrento - onde os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Basílio voltavam incessantemente; depois debatia-se, esgarçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupila se sumia.

(continua...)

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