Por Eça de Queirós (1878)
Contou então largamente o triunfo. Ao principio tivera "grandes cólicas". Todos as tinham, os mais acostumados, os mais ilustres! Mas apenas o Campos disse o monologo do primeiro ato "e como o disse!" haviam de ver, uma coisa sublime - os aplausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo autor, salvas de palmas... Ele viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, a Jesuína por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delírio! O Saavedra do Século tinha-lhe dito: "o amigo é o nosso Shakespeare!" O Bastos da Verdade tinha afirmado: "és o nosso Scribe!" Houve uma ceia. E tinham-lhe dado uma coroa.
- E serve-lhe? - acudiu Julião.
- Perfeitamente; um bocadinho larga...
O Conselheiro disse com autoridade:
- Os grandes autores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre representados com assuas respectivas coroas.
- É o que eu lhe aconselho, Sr. Ledesma - acudiu Julião, erguendo-se e batendo-lhe no ombro -,é que se faça retratar de coroa!...
Riram.
E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado:
- O Sr. Zuzarte não dispensa o seu epigramazinho...
- É a prova da glória, meu amigo. Nos triunfos dos generais vitoriosos, em Roma, havia um bobono préstito!
- Eu não sei! - disse Luísa muito risonha. - É uma honra para a família!...
Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a coroa, como se tivesse direito a usá-la...
E Ernestinho voltando-se logo para ele:
- Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei à esposa...
- Como Cristo...
- Como Cristo - confirmou o Ernestinho, com satisfação.
D. Felicidade aprovou logo:
- Fez muito bem! Até é mais moral!
- O Jorge é que queria que eu desse cabo dela - disse Ernestinho, rindo tolamente. - Não selembra, naquela noite...
- Sim, sim - fez Jorge, rindo também, nervosamente.
- O nosso Jorge - disse com solenidade o Conselheiro - não podia conservar idéias tãoextremas. E decerto a reflexão, a experiência da vida...
- Mudei, Conselheiro, mudei - interrompeu Jorge.
E entrou bruscamente no escritório.
Sebastião, inquieto, foi devagar ter com ele. Estava às escuras.
- Aqueles idiotas não se calarão? Não se irão? - disse ele abafadamente, agarrando o braço deSebastião.
- Sossega!
- Oh, Sebastião! Sebastião! - E a sua voz tremia, com lágrimas.
Mas Luísa, da sala, gritou:
- Que conspiração é essa aí dentro às escuras?
Sebastião apareceu logo, dizendo:
- Nada, nada. Estávamos lá dentro... - E acrescentou baixo: - O Jorge está fatigado. Estáadoentado, coitado!
Notaram, quando ele voltou - que tinha com efeito o ar esquisito.
- Não, realmente não me sinto bom, estou incomodado!
- E a débil D. Luísa precisa o repouso do seu leito - disse o Conselheiro erguendo-se.
Ernestinho que não se podia demorar, ofereceu logo ao Conselheiro e a Julião - a sua carruagem, que era uma caleche, se iam para a Baixa...
- Que honra - exclamou Julião olhando Acácio - irmos na tipóia do grande homem!
E enquanto D. Felicidade se agasalhava, os três desceram.
No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços:
- Ora aqui vou eu entre os representantes dos dois grandes movimentos de Portugal desde1820. A Literatura - e cumprimentou Ernestinho - e o Constitucionalismo! - e curvou-se para o Conselheiro.
Os dois riram, lisonjeados.
- E o amigo Zuzarte?
- Eu? - E baixando a voz: - Até há dias um revolucionário terrível. Mas agora...
- O quê?
- Um amigo da Ordem! - gritou com júbilo.
E desceram, contentes de si e do seu país, para se meterem na tipóia do grande homem!
CAPÍTULO XV
Ao outro dia Jorge foi ao ministério, onde não tinha aparecido nos últimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos desconhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecialhe que todo o mundo sabia; nos olhares mais naturais via uma intenção maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma irônica pressão de pêsames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do Paraíso. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo no corredor ao entrar ouviu Luísa cantarolando, como outrora, a Mandolinata!
Estava-se a vestir.
- Como estás tu? - perguntou, pondo a um canto a sua bengala.
- Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...
Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
- E tu? - perguntou-lhe ela.
- Para aqui ando - disse tão desconsoladamente que Luísa pousou o pente, e com os cabelossoltos veio pôr-lhe as mãos nos ombros, muito carinhosa:
- Que tens tu? Tu tens alguma coisa. Estranho-te tanto há dias! Não és o mesmo! Às vezesestás com um cara de réu... Que é? Dize.
E os seus olhos procuravam os dele, que se desviavam perturbados.
Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo à "sua mulherzinha".
- Dize. Que tens?
Ele olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:
- Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, podes ouvir... Luísa! Vivo num inferno há duassemanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!
E estendeu-lhe a carta de Basílio.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.