Por Eça de Queirós (1878)
Luísa, só consigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a ver Leopoldina, e freqüentaria as igrejas. Saía da doença com uma vaga sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadelos de que lhe ficara uma indistinta idéia aterrada, vira-se às vezes num lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio de chamas escarlates; formas negras giravam com espetos em brasa, um rugido de agonia subia para a mudez do céu; e já lhe tocavam o peito línguas de fogueiras, quando alguma coisa de doce e de inefável de repente a refrescava; eram as asas de um anjo luminoso e sereno, que a tomava nos braços; e ela sentiase elevar, apoiando a cabeça contra o seio divino, que a penetrava de uma felicidade sobrenatural; via as estrelas de perto, ouvia frêmitos de asas. Aquela sensação deixara-lhe como uma recordação saudosa do céu. E aspirava a ela, nas debilidades da convalescença, esperando ganhá-la pela pontualidade à missa, e pela repetição de coroas à Virgem.
Enfim uma manhã veio à sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, à janela, olhava para a rua - quando ela o chamou, e sorrindo:
- Estou a detestar, há tempos, aquele divã - disse. - Podia-se tirar, não te parece?
Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, enfim, com esforço:
- Sim, parece...
- Estou com vontade de o tirar - disse ela saindo da sala, arrastando tranqüilamente a longacauda do seu roupão.
Jorge não pôde destacar os olhos do divã. Veio mesmo sentar-se nele; passava a mão sobre o estofo às listras; e sentia um prazer doloroso em verificar que fora ali.
Principiara a vir-lhe agora uma espécie de resignação sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras, falar com felicidade de futuros tranqüilos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ela tinha-se arrependido decerto, amava-o: para que havia de criar a sangue-frio uma infelicidade perpétua? Mas quando a via com os seus movimentos lânguidos estender-se na chaise longue, ou ao despir-se mostrar a brancura do seu colo - e pensava que aqueles braços tinham enlaçado outro homem, aquela boca gemido de amor numa cama alheia - vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sair para a não esganar!
Para explicar os seus maus humores, os seus silêncios, começou a queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes dela, então, as interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-no mais infeliz - por se sentir amado, agora que se sabia traído!
Um domingo enfim Julião deu licença a Luísa para se deitar mais tarde, e fazer à noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vê-la na sala, ainda um pouco pálida e fraca - mas, como disse o Conselheiro, restituída aos deveres domésticos e aos prazeres da sociedade!
Julião que veio às nove horas achou-a como nova. E abrindo os braços, no meio da sala:
- E que me dizem à novidade? - exclamou. - A peça do Ernesto teve um triunfo!...
Assim tinham lido nos jornais. O Diário de Notícias dizia mesmo que o "autor chamado ao proscênio, no meio do mais vivo entusiasmo, recebera uma formosa coroa de louros". Luísa declarou logo que queria ir ver!
- Mais tarde, D. Luísa, mais tarde - acudiu com prudência o Conselheiro. - Por ora é convenienteevitar toda a comoção forte. As lágrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, podiam produzir uma recaída. Não é verdade, amigo Julião?
- Decerto, Conselheiro, decerto. Eu também quero ir. Quero convencer-me por meus olhos...
Mas o ruído de uma carruagem, lançada a trote largo, que parou à porta, interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.
- Aposto que é o autor! - exclamou ele.
E quase imediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se na sala; ergueram-se com ruído, abraçaram-no: mil parabéns! Mil parabéns! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:
- Bem-vindo o festejado autor! Bem-vindo!
Ernesto sufocava de júbilo. Tinha um sorriso imobilizado; as asas do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto, enfunado de orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como num agradecimento instintivo a multidões aplaudidoras.
- Aqui estou! Aqui estou! - disse.
Sentou-se ofegante; e, com um modo amável de Deus, bom rapaz, declarou que os últimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para vir ver a prima Luísa. Tinha tido naquela noite um instante de seu, mas devia voltar às dez horas para o teatro: até nem mandara a tipóia embora...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.