Por Franklin Távora (1879)
— Tenho os melhores desejos de que cessem este escândalo e desgraça; e prometo-lhe que tudo farei para que o senhor e ela voltem a viver em harmonia, respeitados e estimados dos homens de bem. Antes, porém, de chegarmos a qualquer resultado, exijo do senhor um serviço, a que me considero com direito.
— Tenha V.S. a bondade de declara que serviço é.
— Exijo que o Sr. Bezerra faça ver a sua mulher, em termos que metam fé, que a sua vinda a Pernambuco é o resultado de deliberação sua na qual não tive a menor parte. Há três anos que D. Maurícia vive em minha casa, em tão estreita cordialidade que só nos tem proporcionado horas de contentamento. Todos a têm aqui na maior conta. Eu voto-lhe particular estima, porque não vejo nela somente uma mulher de qualidades distintas, vejo principalmente a educadora carinhosa, a quem minha filha deve prendas de grande preço que constituem o melhor do seu dote. O senhor compreende que em condições tais muito desagradável me seria que, sem fundamento, aliás, tivesse sua mulher motivo para de qualquer modo atribuir-me neste negócio solução que não fosse de seu agrado.
— A minha defesa e a minha glória estão principalmente na espontaneidade com que resolvi procurá-la. Sem essa espontaneidade, nenhuma segurança daria eu de ser no futuro o reverso do que fui no passado.
Quando Bezerra soube que a mulher a e filha não estavam no engenho, grande foi a sua contrariedade. Compreende-se que ele tivesse pressa em ver decidida tão importante questão.
Bezerra dissera, não a verdade inteira, mas só meia verdade a Albuquerque relativamente às diferentes fases de sua vida. Ele, no Pará, fora quase tudo o que pode ser um homem que se deixa resvalar no plano escorregadio do desmando, principiando o escorrego pelo lar doméstico. Vendera tudo o que lhe restava dos poucos bens que a mulher lhe levara em dote, para consumir seu valor na dissipação, no jogo, na malandragem. Tivera várias aventuras, e por uma delas chegara a ir à prisão pública. Quando ficou livre, meteu-se a rábula. Ele não era inteiramente inábil, e porque as necessidades urgiam, chegou, pelo esforço, fazer aquisição dos conhecimentos que no foro se exigem. Por algum tempo se manteve nesta carreira; mas tendo-se sumido dos autos de uma questão importante o documento em que a parte contrária fundava o seu direito, jurou ela vingar-se extrajudicialmente. De feito, uma noite em que Bezerra, ao lado de uma das últimas companheiras lia uma novela, quatro sujeitos mascarados tomaram-lhe as portas da entrada e saída, e dentro de sua própria casa deram-lhe tamanha surra que por morto o deixaram. A companheira desamparou-o nesta hora de suprema agonia, e se não fosse um caridoso vizinho, que dele se condoeu, não sairia da cama senão para a sepultura. Estava ele neste estado, quando a carta de Albuquerque chegou ao Pará. A pessoa mostra-lha; ele cria alma nova. Lembra-se da mulher e da filha, e em voltar à vida conjugal, por tanto tempo desamparada, julga estar a sua salvação; considera-se arrependido; pede a Deus que lhe conserve a vida para que ele tenha, ao menos, ensejo de dar até aos fins dela prova pública de sua emenda. Seus desejos foram cumpridos.
Mas era tamanho o empenho em ver Maurícia, que não se resignou a esperar que ela voltasse a Caxangá. Tendo ficado de voltar no dia seguinte, depois de jantar no Engenho, regressa a Recife e encaminha-se para a casa de Martins.
Entretanto, Albuquerque dava-se os parabéns do desfecho feliz que o triste drama parecia ter.
Ficara toda a tarde no aterrado do engenho com sua mulher. Alice tinha ido passar o domingo em casa de uma parenta; e como se a sorte julgasse necessário todo o tempo a Albuquerque para refletir sobre a nova situação que se desenhava a seus olhos, nesse dia não apareceu nenhum dos habituais freqüentadores da casa.
— Eles ficarão aqui ao pé de nós - dizia Albuquerque a D. Carolina, referindose a Bezerra e Maurícia. A casa onde faleceu minha irmã será para eles. É uma boa casa, em que poderão morar o tempo que lhes parecer. Como não tem esse homem nenhum meio de vida por ora, verei o que se há de fazer para que fique arranjado. Se proceder bem, como espero, Paulo casar-se-á, e restar-me-á o prazer de ter chamado ao bom caminho um casal que andava desnorteado, e de ter realizado a felicidade do meu filho.
D. Carolina, depois de algumas reflexões, ou objeções, que Albuquerque destruiu, achou tudo o mais muito bom, e já desejava que todo esse castelo fosse levado a efeito quando uma carruagem do engenho, que voltava, trouxe Maurícia e Virgínia.
Albuquerque e D. Carolina foram ao encontro das duas senhoras.
Pegando da mão de Maurícia, o senhor do engenho, com o sorriso nos lábios, disse-lhe:
— Tenho uma feliz nova que lhe comunicar, D. Maurícia.
— Uma feliz nova! Eu também tenho uma novidade que lhe referir. Mas esta, Sr. Albuquerque, é triste: É a minha desgraça.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.