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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

As paixões de Lourenço davam para a briga, o roubo, e até para o assassínio, posto que nunca tivesse tirado diretamente a vida de ninguém. Causava-lhe prazer destruir as animadas e as inanimadas criaturas, que não eram bastantemente fortes para fugir ás suas arremetidas, ou resistir a seu gênio demolidor. Mutilava as arvores, por despojalas de uma parte de sua forma e faze-las defeituosas. Dava pancadas nos cães por ouvi-los soltar gritos de dor. Com o padecimento mudo da arvore, e com o ruidoso do animal, ele se alegrava, porque era mau de coração; mas não usava habitualmente a mentira, a traição, nem tinha outros vícios feios e sentimentos vis que revelam da parte de quem os cultiva, animo fraco e no todo desprezível. Era o perverso da selva, duro, difícil, mas não impossível de vencer-se, e não o das côrtes, nojento, infame e tão fácil de prostrar-se quão impossível de corrigir-se. Era o malvado ignorante, arrebatado, e não o corruptor manhoso, cortês, polido, muito mais danoso do que o malvado, para o qual há prisões e castigos; o corruptor entre em toda a parte impunemente, e com todos e com tudo comunica a sua perversão: suas palavras adocicadas, os gestos insinuantes, os olhares, os sorrisos, os gracejos, os agrados, os serviços gratuitos, os presentes abrem-lhe o espirito infantil, o seio da família crédula e até o coração do amigo confiante. Dentro em pouco, de ordinário quando já não é tempo de atalhar o mal, sentem-se estes dominados da peçonha mortífera, e perdido no conceito dos que tiveram bastante habilidade ou felicidade para evitar o contato com o envenenador.

O sitio de Francisco, pelo lado do sul, confinava com as terras onde o senho do engenho Bujari tinha umas carvoeiras, que ficavam muito dentro. Não havia ai casa decente, mas uma palhoça ligeiramente feita, onde se abrigava ele, quando vinha dar-lhes uma vista d’olhos. Para evitar que estranhos, aproveitando-se dos cajueirais, fossem fazer carvão em sua ausência, tinha ali o senhor de engenho um casal de negros idosos, cuja ocupação não era outra que pôr sentido nas terras, guarda-las de intrusos, tratar dos cajueiros existentes e plantar novos, afim de que se não extinguissem os cajueirais.

Para se ir á palhoça, distante ainda menos de metade de um quarto de légua da estrada, tomava-se por um estreito trilho que desta partia, dentre duas touceiras de capimassú, e se metia para dentro, ocultando-se pouco adiante por traz das primeiras arvores da capoeira.

Um dia, já ao anoitecer, por ocasião de Marcelina entrar para acender a candeia, Lourenço, que passará a tarde amuado sobre um tronco de macaibeira que jazia estendido ao pé da casa, largou-se pela estrada afora. Pouco adiante, no ponto mesmo em que na estrada se encontrava a vereda, lobrigou ele ao longe Francisco, que tomava a casa. Deliberado a fugir da companhia dos seus benfeitores, única intenção que o fizera apartar-se de casa, o menino, para evitar o encontro com o matuto, enfiou pela vereda. Não sabia ele em que ponto ia ela morrer; mas parecendo-lhe que levava á lagoa, donde tinha visto de tarde chegar Marcelina com um braçado de juncos, e donde se podia ir ao caminho geral por um caminho particular que ela sabia, apressou os passos, e só parou quando, pressentindo gente perto da palhoça, três formidáveis cães, açulados por Benedicto, molecote filho do casal de negros, lhe saíram ao encontro, não para o receberem atenciosamente, como fazem com os de fora os moradores hospitaleiros, mas para o despedaçarem com desabrido furor. Cercado de todos os lados, Lourenço mal se podia livrar dos temíveis defensores de escuso lar, quando de dentro da palhoça correu ao lugar do conflito uma negra apercebida com um jagunço, em atitude de quem o queria desancar.

- Quem é você? quem é você? – perguntou ela, sem fazer o menor gesto aos cães para que se acomodassem. - Sei lá quem eu sou?! Respondeu com maus modos, Lourenço agitado e colérico da estranha e inesperada recepção. Vi este caminho na beira da estrada e sem ter o que fazer, enfiei por ele, para saber onde vinha dar.

- É mentira sua – retorquiu a negra. Você veio atrás das minhas galinhas, e está agora dizendo estas coisas. E eu que pensava que era a raposa que me estava dando no poleiro.

- Negra do diabo! Gritou Lourenço, cada vez mais zangado e irritado. Eu algum dia trepei no teu poleiro? O que eu sinto é não trazer na mão uma vara para te enfiar pela boca a dentro.

- Acuda cá, Moçambique, acuda cá. Estou ás voltas com o ladrão das minhas galinhas – gritou a preta como possessa, e movendo o jagunço contra Lourenço.

Os cães, entretanto, açulados por ela, e autorizados por este novo gesto hostil e agressivo, já mordiam o rapaz pelas pernas como implacáveis inimigos, que de propósito se criam sem cortesia nem benevolência para maior segurança dos lares confiados á sua guarda.

Quando Lourenço sentiu as primeiras dentadas dos terríveis animais, atirou-se desesperado á preta, na intenção de lhe arrancar a arma, de que ele precisava, assim para se defender, como para castigar as ofensas que tanto dela como dos seus companheiros tinha recebido; e teria realizado o seu pensamento, se a esse tempo não se achasse junto com eles, trazendo um longo quiri, descascado ao fogo, o preto por quem a negra chamara em seu socorro.

O conflito tornou-se então sério. O menino, o molecote, a negra, o negro e os cães, tomando parte nele com o empenho de ter cada um por se a vitoria, formaram pelo bracejar e revolver vertiginoso um novelo, uma onda rotatória, um medonho redemoinho, do qual se levantava surdo rumor, produzido pelo respirar confuso, e abafado dos lutadores, e pelo rosnar da rábida matilha.

(continua...)

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