Por Bernardo Guimarães (1872)
Estes estragos físicos não deixavam também de repercutir de um modo deplorável no moral e na inteligência. O espírito de Eugênio, a princípio exaltado pela forte tensão em que o mantinha aquela luta travada consigo mesmo, por fim extenuado de cansaço, acabou por tornar-se moroso e pesado. Sua terna e delicada sensibilidade embotou-se, ou antes apagou-se no gelo de um beatismo frio, austero e sem arroubos. Essa imaginação tão viva e risonha, que como travessa borboleta esvoaçava entre o céu e a terra, entre as flores da colina, e as nuvens matizadas dos brilhantes horizontes, queimou as asas de ouro na luz da candeia fumacenta do estudo e da oração.
Seu caráter mesmo modificou-se profundamente, esse menino outrora tão benigno, tão complacente e comunicativo, posto que algum tanto retraído e melancólico, foi-se tornando de mais em mais seco e frio, desconfiado e sorumbático. Andava como um fantasma, de cabeça baixa e movimentos compassados e vagarosos. O olhar frouxo e estatelado tinha perdido essa travessa mobilidade, esse fulgor transparente próprios dos verdes anos.
Fatal e deplorável poderio do fanatismo sobre um espírito novel e exaltado, acessível a todas as alucinações!
Para esquecer Margarida era preciso quebrantar o corpo a ponto de o reduzir quase a cadáver, embrutecer o espírito e mirrar o coração e Eugênio não trepidou diante de tão horrível alternativa. À força de trabalhos e insônias, de orações, jejuns e mortificações continuadas, caiu em tal estado de prostração, de atonia física e moral, que embotando-se-lhe de todo a sensibilidade e quase extinto o lume da inteligência, o rapaz ficou como que reduzido a um autômato.
Naquele descalabro geral de todas as impressões vivas, de todas as emoções afetuosas, de toda a crença no amor e na felicidade neste inundo, naturalmente também a imagem de Margarida, arrebatada no comum naufrágio, devia ter-se apagado naquele coração, que lançava a perturbação em sua alma. Era verdade: o anjo luminoso desaparecera de seu espírito, como de um santuário deserto onde a lâmpada se havia apagado, ficando reduzido a uma espelunca tristonha, gélida e sombria, e apenas de longe em longe pairava sobre ele, e lançava-lhe no seio um reflexo pálido como luz de uma estrela afogada entre nuvens.
Eis como uma educação fanática e falseada, abusando de certas predisposições do espírito, lança naquela alma o germe de uma luta íntima e cruel, que fará o tormento de toda, a sua vida e o arrastará talvez à última desgraça, se a misericórdia divina dele não se amercear.
CAPÍTULO VIII
Havia já quatro anos, que Eugênio se achava no Seminário sem visitar sua família. Seu pai já por vezes tinha escrito aos padres pedindo-lhes que permitissem que o menino viesse passar as férias em casa. Estes porém já de posse dos segredos da consciência de Eugênio, receando que as seduções do mundo o arredassem do santo propósito em que ia tão bem encaminhado, opuseram-se formalmente, e responderam-lhe, fazendo ver que aquela interrupção na idade em que se achava o menino, era extremamente perigosa, e podia ter péssimas conseqüências, desviando-o para sempre de sua natural vocação.
Uma ausência porém de quatro anos já era excessiva para um coração de mãe, e a de Eugênio, principalmente depois que seu filho andava mofino e adoentado, não pôde mais por modo nenhum conformar-se com a vontade dos padres. Estes portanto, muito de seu mau grado, não tiveram remédio senão deixálo partir.
A viagem, o movimento, as distrações, o ar livre restituíram em breve tempo à feliz organização do mancebo o viço e o vigor natural, que a longa enclausuração e a vida ascética lhe iam apagando tanto no físico como no moral. À medida que viajava e ia-se avizinhando do lar paterno, ia-se de novo acendendo o brilho dos seus olhos, voltavam-lhe as cores ao rosto pálido, e com elas voltavam também a enxamear no espírito as fagueiras recordações dos brincos da infância em companhia de sua bem querida companheira, como um bando de passarinhos, que depois de uma longa invernada saem das moitas a esvoaçar, espanejar-se e cantar pelos ramos floridos do vergel aos raios de uma formosa manhã de agosto.
Eugênio ardia de impaciência por tornar a ver a casa paterna, os sítios amados onde passara a infância com Margarida. Em sua inexperiente confiança já não receava perigo algum em rever em carne e osso aquela encantadora menina da qual somente a lembrança outrora o assustava, pois julgava-se bastante premunido pelos conselhos e exortações do padre contra qualquer sedução do mundo, e abandonava-se sem reserva às suaves emoções e ao alegre alvoroço que lhe ofegava no coração o dia da chegada de Eugênio foi um dia de festa em casa do capitão Antunes. Pai e mãe se extasiavam diante do filho, e não se fartavam de contemplá-lo, admirando-lhe o porte e o crescimento, as maneiras e o rosto já tão graves e sisudos, e enfim aquele todo verdadeiramente sacerdotal.
Como Eugênio chegara à casa quase à noite, somente na manhã do dia seguinte Umbelina e sua filha puderam ir cumprimentar e visitar o recém-chegado, o pequeno padre, como já chamavam a Eugênio. Apenas este deu com os olhos em Margarida, sentiu um abalo estranho, uma perturbação extraordinária; corou e empalideceu no mesmo instante, ficou trêmulo, confuso e tolhido, como se tivesse diante de seus olhos um espectro ameaçador, e apenas pôde balbuciar um cumprimento embaraçado.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.