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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Mas Paulina também, coitada! era porventura mais feliz do que ele? É verdade que Eduardo mostrava com ela o mais terno interesse, e a tratava sempre com a mais lisonjeira deferência. Nem outra coisa se poderia esperar de um moço polido e de fina educação, e Paulina atraía as homenagens e a admiração de todos que a viam. Todavia era ela bastante inteligente e perspicaz para deixar de compreender que nem nas expressões nem nos olhares de Eduardo, nem em toda aquela afeição, aliás íntima e sincera, que o mancebo revelava por ela, não havia a mínima centelha de amor. Notava com extremo desgosto que Eduardo andava sempre distraído e pensativo, que seus olhos andavam sempre passeando ao longe, e como querendo transpor as distâncias com o pensamento. A conversação de Eduardo rolava freqüentemente sobre lembranças de sua terra, da qual se mostrava extremamente saudoso, e dando-se por feliz por ter sido como um instrumento da Providência para proteger a vida de Paulina, não deixava de lastimar o incômodo, que viera atrasar seus negócios, e retardar sua volta ao país natal. Um cruel desalento, uma tristeza mortal se apoderava então do coração da moça; mas como a esperança é a última companheira que nos abandona no infortúnio, ela procurava iludir suas tristes apreensões, e pensava consigo:

– Talvez ele seja frio e reservado de seu natural. – O amor nem sempre brilha nos olhos, ou se derrama em palavras de fogo, e dizem que quando existe oculto assim e guardado no coração, é ele mais forte e violento... Tem saudades de sua terra?... que tem isso?... há nada mais natural?... tem lá sua mãe, seus parentes e amigos... Quem sabe!... talvez que um dia vamos juntos para lá. .

Capítulo V

À sombra da gameleira

Assim se passaram uns quinze dias, durante os quais o espírito de Paulina se agitava na mais cruel ansiedade entre a esperança e o desalento.

Entretanto Eduardo, mais vigoroso e quase completamente restabelecido, tinha-se já levantado do leito, em que jazera por tantos dias, e ensaiava alguns passeios em derredor de casa, pelos currais, pelo pomar e pelos campos vizinhos.

Estava uma linda tarde, vaporenta e melancólica, como só as há naquelas descampadas e formosas regiões uberabenses. Como era tempo da queima dos campos, a fumaça das queimadas embaciando os horizontes dava-lhes formas e coloridos vagos e fantásticos. O ar estava morno, imóvel e embalsamado. Em frente da casa se desenrolava mágico e sublime o panorama das solidões sem-fim numa sucessão interminável de plainos, florestas, colinas e espigões, cujas formas iam morrer indecisas ao longe engolfadas nas ondas de um vapor dourado. O arpejo tão lânguido, tão cadenciado do sabiá harmonizava-se docemente com aquele místico e voluptuoso remanso, que envolvia toda a natureza. Também cantava ao longe o boiadeiro que vinha tocando as manadas para os currais, e o chiado monótono dos carros, que cortavam os chapadões carregados de fartas colheitas.

Em um ângulo do vasto curral que ficava na frente da casa, havia uma dessas gameleiras colossais, como as há em quase todos os currais das fazendas daquele sertão, e que podem abrigar debaixo de sua gigantesca cúpula uma numerosa manada de gado, de tronco nodoso e cheio de fendas e cavidades, em qualquer das quais um homem se abrigaria comodamente do mais violento temporal. Servem ao mesmo tempo de aprisco para o gado, e de coberta, onde se guardam carros, cangas e mais arreios de carreação.

Recostado sobre a mesa de um carro, que se achava à sombra da gameleira, achava-se Eduardo tomando o fresco, e espairecendo as vistas pela elevadora perspectiva que tinha diante dos olhos; sem dúvida cismava saudades de sua terra, de sua mãe, e da sua querida Lucinda. O velho fazendeiro achava-se também encostado ao peitoril da varanda, armado de um bom par de óculos, lendo um grosso e velho alfarrábio. Não havia muito tempo que Eduardo se achava ali entregue a seus pensamentos, quando Paulina descendo ligeiramente a pequena escada de pedra que vinha dar ao curral, trouxe-lhe uma cesta de laranjas, e lhas ofereceu com um encantador sorriso e expressões cheias de amabilidade. Como seu pai se achava ali à vista entendeu que nenhum mal ia à sua honestidade e recato em conversar a sós com Eduardo alguns momentos. Há muito que suspirava por uma ocasião de entreter-se com ele sem testemunhas, e procurar devassar-lhe, se possível fosse, os segredos do coração, e por isso aproveitou-se com sofreguidão daquela primeira oportunidade que se lhe oferecia, e vencendo a custo o natural pudor e acanhamento, encetou timidamente uma conversação cuja direção já tinha ideado.

O primo Roberto, porém, que sempre desconfiado e ardendo em zelos não perdia um só passo de Paulina e Eduardo, já de uma janela os estava observando, e não podia suportar com paciência aquele espetáculo, que o torturava. Interromper e perturbar a todo transe e de qualquer modo que fosse, aquilo que a seus olhos era uma entrevista despejada e escandalosa, foi logo o seu pensamento. Intrometer-se bruscamente de permeio na conversação seria uma grosseria, que iria magoar sua prima, a quem ao lado do muito amor tinha ele muito respeito ou antes muito medo.

(continua...)

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