Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O fidalgo saiu furioso, protestando vingar-se, e foi direito ao príncipe regente queixar-se da zombaria de que fora objeto. Mas o desembargador Petra, interrogado pelo príncipe, tais cousas disse e tão claramente manifestou a verdade, que as violências cessaram, e o sistema das aposentadorias foi mais suavemente executado.
Por ocasião da sua elevação ao trono, o Sr. D. João VI reformou ainda este sistema, concedendo aos habitantes da cidade do Rio de Janeiro as aposentadorias passivas.
Faço aqui ponto final a respeito das aposentadorias.
Creio, porém, meus companheiros de passeio, que podemos conversar ainda alguns momentos, visto que não temos pressa nem razão alguma para andar correndo.
Falei-vos do desembargador Petra. Disse-vos que era ele um homem original, e não devo contentar-me com a única anedota que a seu respeito referi.
Aí vai outra.
Naqueles tempos de que nos estamos lembrando neste passeio, somente de calções e meias de seda se apresentavam no paço os homens da corte. O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam. Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a democracia.
Se aceitarem a idéia, pode bem ficar determinado que o último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela.
Vamos, porém, à anedota.
Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao paço fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de tafularia, levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda.
Preparava-se o desembargador Petra, um dia, para ir ao paço. Achava-se já de calções, porém ainda em mangas de camisa, e eis que lhe aparece, de súbito, um grande criminoso contra quem havia dado ordem de prisão e que lhe trazia um requerimento a despachar.
O desembargador, em vez de receber o requerimento, abre a boca e brada: “Está preso!”
O criminoso volta as costas, corre pela porta afora. Mas o desembargador Petra, em mangas de camisa e sem chapéu, como estava, deita igualmente a correr pela rua atrás do fugitivo, gritando: “Pega ladrão! Pega ladrão!”
O povo acudiu à voz da justiça. O criminoso foi cercado, preso e recolhido à cadeia. E o desembargador Petra, muito satisfeito do resultado da diligência, voltou para casa, tomou a beca e foi para o paço.
Quero ainda contar-vos uma outra anedota relativa ao mesmo magistrado. Será a última. Antes, porém, de o fazer, desejo, assim a modo de prólogo ou introdução de uma história, oferecer-vos breves considerações.
O mal que se está experimentando sempre nos parece mais grave ou doloroso do que o mal que já se experimentou. Esta nuança do nosso egoísmo faz-nos geralmente muito injusto para com o nosso tempo.
Andamos agora incessantemente maldizendo do patronato e queixando-nos dos repetidos e vergonhosos milagres que ele operava. Causa-nos espanto a cara horrível do patronato de hoje. Ah! Façam idéia da face medonha do patronato daqueles tempos em que o arbítrio era a lei, a vontade de um ministro valia mais do que todos os interesses do país e todas as conveniências públicas.
Ao menos, agora, cada um de nós tem nas “publicações a pedido” dos jornais diários e em cada tipografia uma elevada tribuna em que solta a voz e fala como um deputado. E dantes? Dantes, quem falava ou escrevia fora do compasso marcado pela batuta do governo fazia uma viagem à África, ou, pelo menos, deixava o seu nome escrito no livro do carcereiro.
Morto por um raio seja eu, se troco o meu tempo pelo tempo do mando e quero, se troco o direito que tenho hoje de pensar em voz alta, de discutir e de censurar, pelo antigo dever de uma cega obediência e de um silêncio de catacumbas.
Patronato sempre houve, e patronato há ainda. Mas o patronato de outrora difere muito do patronato de hoje.
Eis algumas das diferenças que se podem notar entre o velho e o novo.
O patronato do outro tempo usava de calções, e o da atualidade de calças.
O patronato do outro tempo andava de dia e se mostrava ufano no meio da praça: o da atualidade anda de noite, e, de ordinário, se esconde pelos becos. No entanto, o novo sai de carruagem, como acontecia ao velho.
O patronato do outro tempo dizia sempre: ordeno isto! O patronato da atualidade, diz: arranjemos isto!
Ao patronato do outro tempo tirava-se o chapéu com todo o respeito e consideração; ao patronato da atualidade manda-se ao diabo sem a menor cerimônia.
O patronato do outro tempo ostentava-se, apoiando-se na
coluna do arbítrio; o patronato da atualidade esconde-se atrás do sofisma.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.