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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Uma tarde, Hermano não veio como de costume sentar-se no banco dos bambus. Ela impacientou-se com a demora; lastimou Julieta por aquela primeira inconstância; e afigurou-se-lhe ver a esposa desdenhada suspirando na sua tristeza e abandono.

Pouco tempo depois Hermano saía à chácara acompanhado do Teixeira, e dirigiu-se para o sítio habitual. Advertindo, porém, que não estava só, arredou-se e foi sentar-se longe com o amigo.

Amália adivinhou então a causa da ausência que a afligira. Perdoou a Hermano em nome de Julieta; condoeu-se da contrariedade que ei devia sofrer naquele momento; e irritou-se contra o Teixeira, que viera disputar o amigo ao amor da mulher e obrigá-lo a parecer ingrato.

À noite fechada Amália via através da folhagem brilhar a luz do gás nas janelas que ela sabia serem as dos antigos aposentos de Julieta; nessa ocasião murmurava:

— Está junto dela.

Recordava-se então da vez em que os vira ali outrora; dos beijos que Hermano dera na mulher, e do rubor da noiva quando percebeu que alguém os espiava, e que ria de sua ternura. Nesses momentos repreendia-se por aquela travessura de criança, de que se envergonhava.

Henrique Teixeira lhe dissera que esses aposentos ainda estavam como Julieta os deixara. Que vontade não tinha de os ver de novo, e agora que podia melhor apreciá-los! Às vezes dirigia-se para o terraço donde antigamente espreitava os noivos. Mas a delicadeza de seus sentimentos a retinha. Repugnava-lhe espiar a casa alheia, e abaixar-se a essa curiosidade leviana.

Notou, porém, que as rótulas estavam constantemente fechadas; portanto ela podia sem indiscrição aproximar-se dessas janelas. Para quê? Para estar mais perto, para ter uma esperança vaga e ilusória de ver aquilo que fugia de olhar.

Em uma noite cálida e abafada, a moça recostada à leiva de grama, fatigava, como de costume, os seus belos olhos em distinguir umas sombras fugitivas e confusas que se agitavam por dentro das venezianas.

As rótulas estavam apenas cerradas, o que ela notou pela estreita faixa de luz que indicava o interstício das duas abas não ajustadas. A princípio teve escrúpulo; mas como era impossível enxergar por aquela fresta, deixou-se ficar.

Instantes depois a moça caiu de bruços sobre o respaldo de grama, sufocando nos lábios o grito doloroso que lhe estalara no seio.

Capítulo 9

Soprava a viração da noite.

O primeiro lufo, cortando o ambiente cálido e estagnado, e derramando no ar uma onda de frescura, rugitou pela folhagem das mangueiras.

Com a rajada, as rótulas se tinham afastado de modo a mostrar no quadro da janela o interior do aposento.

No centro havia uma mesa de charão com um vaso de rosas, colhidas naquela tarde. Amália vira quando Hermano as cortara da haste e pensou então que eram uma oferenda do marido à esposa querida. Naturalmente iam ornar o seu toucador.

Junto do vaso estava aberta uma caixa de carvalho com preparos e utensílios de flores artificiais; e na beira da mesa uma peanhazinha de bronze que mantinha direita na sua haste de arame uma rosa de pano ainda por acabar.

Hermano sentado ao lado com um livro aberto lia a meia voz; e embora o sussurro de suas palavras se perdesse nos rumores da noite, podia Amália mesmo de longe ver-lhe o movimento dos lábios.

Mas não foi nada disto o que feriu a alma da moça, quando a veneziana aberta patenteou-lhe aquela cena.

Em face de Hermano e também sentada como ele, Amália viu, cheia de espanto, uma mulher. Era moça e de rara formosura. Na posição que tomara, o seu talhe moldado por um vestido simples e justo, de seda azul à princesa, desenvolvia-se com um garbo indefinível.

A madeixa de cabelos negros sombreava o níveo fulgor do semblante, cujo delicado perfil pareceu a Amália ser talhado em um jaspe macio e diáfano, tão suave era o tom dessa carnação.

Descansava sobre a mesa um dos braços, cuja perfeição estética aparecia no esvazado da manga, e tinha a fronte ao de leve reclinada para a espádua, como uma flor que se realça para haurir a luz e os orvalhos do céu.

Amália compreendeu essa expressão de êxtase.

Pensou que a moça interrompera o seu trabalho de florista para embeber-se no encanto de ouvir as palavras de Hermano, o qual também abaixara o livro para contemplá-la e encher-se de sua beleza.

Do primeiro relance Amália não viu senão uma maulher naquele aposento, que pertencia a Julieta; não sentiu senão o golpe de tão indigna profanação; e foi este sentimento que lhe despedaçou a alma em um grito de dor, e atirou-a convulsa e fulminada sobre o cômoro de grama.

A cólera a reanimou. Ergueu-se e foi então que viu tudo. Seu olhar repassado de ódio correu todas as linhas daquela estátua harmoniosa como o faria o severo buril de um escultor; e não achou uma aspereza, um lisim. Ela poderia notar naquela fisionomia a fixidez de expressão, que a amortecia; mas era precisamente essa elação do amor, a maior sedução da rival de Julieta, a sua beleza ideal e celeste.

(continua...)

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